Diminutivos e a "Papudinha": como a linguagem suaviza injustiças
Os brasileiros têm uma relação curiosa — e reveladora — com a linguagem, por exemplo, no uso recorrente do diminutivo como forma de suavizar uma realidade incômoda. O sufixo “inho”, que indica tamanho reduzido ou expressão de afeto, ganhou entre nós uma função mais problemática: atenuar fatos graves, amortecer choques morais e tornar mais palatáveis situações que exigiriam clareza, enfrentamento e responsabilidade.
É como se, ao diminuir as palavras, diminuíssemos também o peso do que elas representam. O vocabulário passa a funcionar, assim, como uma espécie de anestésico moral. A realidade permanece dura, mas chega filtrada, arredondada, amaciada. Não é um detalhe irrelevante. A linguagem não apenas descreve o mundo; ela molda a forma como o percebemos e reagimos a ele.
Um exemplo eloquente desse fenômeno é a Papudinha. O nome sugere algo inofensivo e quase fofo, como um brinquedo Lego, quando se refere a uma prisão, o espaço de materialização máxima do poder de coerção do Estado.
Nada na Papudinha é fofo ou leve, muito menos para quem deveria estar em liberdade. Ainda assim, o diminutivo se impõe no discurso público, produzindo um efeito curioso: a prisão deixa de soar como prisão, perde o peso simbólico que deveria carregar. Alivia a consciência de quem vê arbitrariedades, mas prefere se acomodar. O vocabulário amortece o desconforto e facilita a assimilação de uma injustiça que deveria causar........
