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A confiança nos últimos grãos

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16.03.2026

Há certas cenas que não escandalizam – apenas revelam. Imagine-se uma ampulheta sobre a mesa de uma instituição respeitável. Durante anos a areia desce com a discrição própria das coisas inevitáveis, enquanto os que a cercam se ocupam de negócios mais urgentes, ou assim lhes parece. Nada se comenta; nada se vê. Até que chegam os últimos grãos. Então alguém descobre o tempo. Não o escândalo – que esse já corria há muito – mas a ampulheta.

A Gazeta do Povo foi direta ao ponto na semana passada – e o gesto merece ser reconhecido, embora por razão diversa da que se poderia supor. A Gazeta nunca precisou abandonar benevolência que jamais cultivou. O editorial publicado na última segunda-feira (9), construído com rigor e coragem, nomeou o problema sem rodeios: “As mensagens reveladas na última sexta-feira entre o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, e – ao que tudo indica – o ministro do STF Alexandre de Moraes são, até o momento, o ponto mais grave de um escândalo institucional de enormes proporções”. A Folha de S.Paulo e O Globo, veículos que durante anos trataram o Supremo com uma deferência quase protocolar, chegaram ao mesmo diagnóstico em editoriais publicados na sexta-feira – com o peso específico de quem chega depois.

A Folha registrou que “negativas brevíssimas e lacônicas, como as que tem divulgado, não satisfarão o direito dos brasileiros de esclarecer as dúvidas sobre um dos juízes da corte mais elevada” e concluiu que “dissipa-se a cada dia a tolerância da sociedade com as não poucas mostras de autoproteção, soberba e abuso de poder”. O Globo foi mais conciso: “Ministros do STF não podem se dar o direito de omitir explicações”. Há semanas o debate público caminhava para esse ponto. Ele chegou. O mérito de cada veículo é real – e proporcional à trajetória de cada um.

Os fatos, ainda que cercados pelas ressalvas que a ausência de prova judicial exige, constrangem qualquer leitura favorável ao ministro do STF. Em 17 de novembro de 2025, Vorcaro trocou mensagens ao longo de todo o dia com um número que, segundo análise técnica que teria sido realizada pela Polícia Federal, atribuiria ao ministro Alexandre de Moraes – método incomum, via capturas de tela de bloco de notas enviadas com visualização única, de modo a não deixar rastros diretos. O ministro teria respondido quatro vezes e reagido com emoji de aprovação à primeira e à última mensagem do banqueiro.

O que o caso Master expõe, em sua dimensão mais perturbadora, é um tribunal que ao longo de anos convenceu-se de que pode redesenhar o sinal vermelho enquanto dirige. Esse é o momento em que a interpretação deixa de ser técnica e passa a ser exercício de vontade

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