Quando a fé é âncora – e quando vira moeda política
Há semanas em que os fatos parecem conversar entre si. À primeira vista, eles surgem espalhados, quase desconexos, como peças de quebra-cabeça jogadas sobre a mesa. Mas basta ajustar a lente para que a figura apareça. E, nesta semana, três cenas ajudaram a revelar algo que o Brasil ainda tem dificuldade de formular com precisão: a religião voltou ao centro da vida pública. Ou, talvez seja melhor dizer, ela nunca saiu de lá. O que mudou foi a nossa capacidade – muitas vezes frágil, apressada e ideologizada – de compreendê-la.
A primeira cena vem de Genebra. O Instituto Brasileiro de Direito e Religião avança em sua atuação no sistema internacional de direitos humanos, a partir de seu status consultivo especial perante o Conselho Econômico e Social das Nações Unidas. Estivemos lá buscando nossas credenciais, marcando o início de nossa atuação. Para alguns, isso pode parecer apenas uma conquista institucional. Não é. Trata-se de um sinal de maturidade de uma agenda que nasceu, no Brasil, muitas vezes confinada à conversa de pastores, advogados, igrejas e líderes religiosos, mas que agora se apresenta no ambiente próprio das grandes discussões civilizatórias: dignidade humana, liberdade de consciência, liberdade religiosa, pluralismo, educação, discurso público e limites do poder.
A segunda cena vem de Washington. Diante do Congresso dos Estados Unidos, o rei Charles III fez um discurso raro para os padrões contemporâneos. Falou de história, de democracia, de common law, da Magna Carta, do Bill of Rights, de limites ao poder executivo, de independência judicial, de liberdade e de responsabilidade. Em seguida, sem constrangimento e sem agressividade, afirmou que a fé cristã é, para ele e para muitos ali presentes, uma “âncora firme” e uma inspiração diária, não apenas pessoal, mas comunitária. E fez isso para logo depois falar de diálogo inter-religioso, compreensão mútua, paz, compaixão e respeito a pessoas de todas as fés e também às que não têm fé alguma.
A terceira cena vem de Brasília. A indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal naufragou no Senado. Politicamente, foi um fato enorme. Institucionalmente, ainda maior. Mas, para o nosso tema, o mais revelador talvez tenha sido a repercussão. Parte do debate público se ocupou em contar quantas vezes o indicado disse “Deus”, quantas vezes disse “evangélico”, se foi mais ou menos “terrivelmente evangélico” que André Mendonça, se a fé ajudou, atrapalhou, serviu de senha ou virou peso morto na articulação política.
O problema não é perguntar se a religião deve estar presente no espaço público. Ela já está. A pergunta verdadeira é outra: teremos maturidade constitucional para compreendê-la?
O problema não é........
