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De Olhos Bem Fechados e a fronteira invisível da perversidade

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05.02.2026

De Olhos Bem Fechados (1999), último filme de Kubrick, envelhece para frente. Cada época descobre ali uma camada nova. O objeto nunca foi um escândalo pontual. Kubrick investigou o autoengano do progressista moderno: a crença de que educação, renda e bons modos garantem livre circulação entre classes e códigos das pessoas distintas. A ilusão progressista desmorona diante da primeira fronteira invisível. Essa é uma semana oportuna para lembrar dessa obra-prima.

Dr. Bill Harford (Tom Cruise) vive um casamento aparentemente estável com Alice (Nicole Kidman), curadora de arte. Após uma festa de Natal, a esposa confessa atração antiga por um desconhecido, um impulso tão forte que seria capaz de abandonar marido e filha. Para ser preciso, Alice conta um sonho em que fazia sexo com o oficial da marinha.

A revelação desestabiliza Bill. A partir daí, ele vaga pelas ruas de Nova York, assombrado pela imagem da esposa com outro homem. A confissão atinge Bill onde sua identidade parece mais sólida: a convicção de controle e uma vida estável. Alice revela um mundo interno que escapa à vigilância de Bill. Kubrick filma sem melodrama.

Essa fissura desorganiza Bill e o empurrará para o submundo do poder. Ele descobre que estabilidade social não equivale a soberania afetiva. A noite de errância nasce dessa ferida. Cada encontro funciona como tentativa de compensação.........

© Gazeta do Povo