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“Apocalypto”, 20 anos depois

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26.02.2026

Corri para rever Apocalypto quando o filme entrou no catálogo do Prime Video. Vinte anos depois, o impacto permanece. Na época, vi no cinema. Um privilégio. Hoje compreendo melhor a trama e suas ambiguidades. Em 2006, o filme foi acusado de espetáculo de violência gratuita, falsificação histórica e as tolices de sempre. O tempo foi mais lúcido que a crítica: Mel Gibson filmou uma análise rigorosa da relação entre poder político, medo coletivo e a necessidade humana, aparentemente irresistível, de uma vítima. Os deuses têm sede.

A cidade maia está em agonia antes da primeira cena de sacrifício. A peste avançou sobre os campos e os corpos – e, na cosmologia maia, doença e colheita destruída eram recado dos deuses. Segundo o Popol Vuh, o cosmos exigia sangue humano para se sustentar. Kukulcán, a serpente emplumada associada ao ciclo do sol e da chuva, precisava ser alimentada. Sem oferenda, caos.

O sacerdote ocupa, nesse sistema, posição decisiva. Ele interpreta o colapso e prescreve o remédio: sangue humano. A praga indica ruptura do pacto entre humano e divino; restabelecê-lo exige vítimas, e vítimas em quantidade. Por isso as aldeias da floresta são atacadas. Há necessidade litúrgica. Matar em público, diante de multidões que acreditavam genuinamente na dependência cósmica do sangue, constituía oferenda aos deuses. A peste legitimava o poder. O poder prometia conter a peste. O ciclo se fechava sobre os mortos.

Mel Gibson filmou uma análise rigorosa da relação entre poder político, medo coletivo e a necessidade humana, aparentemente irresistível, de uma........

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