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Anthony Fauci e os diários da vergonha alheia

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Certo dia de julho de 2020, poucas semanas depois de sancionada a lei que obrigava o uso de máscaras em espaços públicos, eu estava no hall do elevador do meu prédio – sem máscara, obviamente, porque uso minha cabeça para pensar, não como suporte de alegoria de pano – quando uma vizinha se aproximou e, enquanto esperávamos o elevador, lançou-me um olhar de fúria que pude entrever, do que restava visível de seu rosto mascarado, pelas sobrancelhas erguidas. Eu carregava minha filha de 2 anos no colo. A criança, inocente, abriu um sorriso de expectativa e disse boa-noite à vizinha – porque nos dias anteriores tinha ouvido insistentemente do pai lições de boa educação. Qual não foi sua surpresa quando a vizinha virou-lhe a cara e nada respondeu, preferindo dirigir-se a mim, em tom imperativo: “Não vai pôr a máscara, seu negacionista?”

Naquele momento, tive a confirmação do que vinha suspeitando – e registrando em minhas colunas aqui na Gazeta – desde o início daquele processo distópico. Muita gente havia enlouquecido e perdido o resquício de humanidade. O medo instigado as havia animalizado, colocando-as num animus de pura sobrevivência física. Foi exatamente esse fenômeno que o filósofo Giorgio Agamben, ainda nos primeiros meses de 2020, identificou com a precisão de quem já havia dedicado a vida a pensar os mecanismos da exceção soberana: o pânico sanitário, transformado em política de Estado, reduzia a existência humana à sua dimensão puramente biológica – aquilo que os gregos chamavam de zoé, a mera vida animal, em contraposição a bíos, a vida propriamente humana, qualificada, vivida em comunidade e orientada por um sentido que a transcende.

Sob o império do medo, a “vida boa” – o bíos aristotélico, aquele que inclui liberdade, convívio, cultura, transcendência – foi inteiramente amputada em nome da mera sobrevida (a vida nua, na expressão do próprio Agamben), como se o único valor digno de proteção fosse a manutenção do batimento cardíaco, a qualquer custo e por qualquer meio, inclusive o sacrifício de tudo o que faz a vida humana ser humana. Não à toa, aquela minha ex-vizinha, apavorada, preferiu tratar uma criança de 2 anos com desprezo a arriscar minimamente sua própria integridade biológica: o terror pandêmico, fruto de muita desinformação, censura, manipulação do debate e lavagem cerebral, triunfara – e havia produzido exatamente o tipo de sujeito........

© Gazeta do Povo