menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

A “tirania da culpa” matou Henry Nowak

26 0
06.06.2026

Em 3 de dezembro de 2025, perto da meia-noite, um estudante polaco-britânico de 18 anos chamado Henry Nowak voltava a pé de uma saída com o time de futebol da Universidade de Southampton quando cruzou o caminho de Vickrum Digwa, um sikh de 23 anos que carregava duas facas – uma exibida abertamente, outra escondida sob as roupas – e que havia treinado com armas desde os 12 anos de idade. Após uma altercação verbal, Digwa esfaqueou Nowak cinco vezes: duas nas costas das pernas enquanto a vítima tentava fugir, uma no rosto, e uma no peito, que o mataria. Nowak escalou uma cerca deixando um rastro de sangue, pedindo socorro. A mãe de Digwa chegou antes da polícia e fez desaparecer a arma do crime – encontrada mais tarde na casa da família, junto com outras 20 facas e espadas sikhs. Digwa, então, acusou Nowak de ter pronunciado insultos racistas e derrubado seu turbante. O tribunal depois concluiu que eram, nas palavras da acusação, “mentiras torpes e fabricadas”.

Mas, quando chegou ao local naquele dia fatídico, a polícia acreditou sem pestanejar na versão de Digwa, o esfaqueador. Então Nowak, o esfaqueado, foi algemado no ato. Deitado no chão, sangrando, disse aos policiais que havia sido ferido por faca. Disseram-lhe que não – que não era visível, dada a escuridão e o frio de dezembro. Suas últimas palavras foram: “Por favor, irmão, não consigo respirar”. Quando ele desabou, retiraram as algemas e tentaram ressuscitá-lo. Era tarde. Morreu ali mesmo, às 0h37.

O júri condenou Digwa por assassinato em 28 de maio de 2026, rejeitando integralmente as acusações de racismo fabricadas pelo assassino. Mas a polícia de Hampshire já havia feito o seu trabalho – o único trabalho que, naquela noite, estava efetivamente no topo das suas prioridades: não ser acusada de racismo.

O Ocidente transformou a culpa num credo, numa forma de virtude performativa que opera independentemente dos fatos. E o assassino de Henry Nowak decerto sabia disso

O Ocidente transformou a culpa num credo, numa forma de virtude performativa que opera independentemente dos fatos. E o assassino de Henry Nowak decerto sabia disso

No livro The Tyranny of Guilt, Pascal Bruckner descreveu com precisão a patologia que governa as elites ocidentais contemporâneas, e que subjaz ao comportamento abjeto da polícia britânica para com Henry Novak: uma compulsão masoquista à autoflagelação, à culpa........

© Gazeta do Povo