100 anos de navios: o que ficou em Portugal?
Oito ciclos de renovação da Marinha Portuguesa. Ao longo dos últimos cem anos, a Marinha Portuguesa conheceu vários ciclos de renovação da Esquadra, determinados pelas circunstâncias estratégicas, financeiras, tecnológicas e operacionais. Cada um desses ciclos foi também uma oportunidade — ou uma oportunidade perdida — para criar capacidade nacional.
Uma característica relevante foi a relação entre a renovação da Esquadra e o desenvolvimento da construção e manutenção naval em Portugal. Em diferentes períodos, a Marinha projetou e construiu navios em estaleiros nacionais, formou técnicos e acumulou competências. É esta relação entre navios, indústria e conhecimento que permite compreender não apenas a evolução da Marinha, mas também o que Portugal ganhou — ou deixou de ganhar — com cada programa de renovação.
1. A renovação da década de 1930 — O Plano Naval de Magalhães Correia
A Marinha Portuguesa viveu, durante a década de 1920, um período de profunda degradação, bem traduzido pelas palavras do ministro da Marinha de então, almirante Pereira da Silva: “na verdade, a Marinha de Guerra Portuguesa como força naval não existe […] o resultado é termos chegado ao Zero Naval”. Pereira da Silva concebeu e defendeu um plano de renovação da Esquadra, parcialmente concretizado em 1930, com o Decreto-Lei n.º 18 633, de 17 de julho, sob a responsabilidade do então ministro da Marinha, almirante Magalhães Correia.
O programa previa avisos, contratorpedeiros, submarinos e outros meios. Na primeira fase entraram ao serviço os avisos Afonso de Albuquerque e Bartolomeu Dias; cinco contratorpedeiros da classe Vouga; três submarinos da classe Delfim; e quatro avisos de 2.ª classe, das classes Gonçalo Velho e Pedro Nunes, estes últimos construídos no Arsenal de Marinha.
2. O pós-Segunda Guerra Mundial — aproveitar os excedentes de guerra
Após a Segunda Guerra Mundial, a maioria dos navios da Esquadra tinha sido adquirida na década de 1930. As forças aliadas dispunham de numerosos meios navais excedentários, que poderiam ser obtidos em condições vantajosas. Em 1948 e 1949, Portugal adquiriu à Inglaterra as fragatas Nuno Tristão e Diogo Gomes, três submarinos da classe Narval e seis navios-patrulha classe Príncipe. Procurava-se renovar rapidamente a Esquadra com unidades modernas e custos reduzidos.
Estas aquisições permitiram contactar com tecnologias desenvolvidas durante a guerra, dando à Marinha experiência acrescida em comunicações, radares e armamento.
3. A entrada na NATO — uma nova geração de meios
A entrada de Portugal na NATO permitiu à Marinha beneficiar de importantes programas de assistência e reequipamento militar, sobretudo através do Mutual Defense Assistance Program (MDAP), dos Estados Unidos. Parte dos meios navais foi fornecida no âmbito desses programas, enquanto outros foram adquiridos diretamente por Portugal. Paralelamente, diversas infraestruturas de apoio à atividade naval foram financiadas através dos fundos comuns da NATO.
A Esquadra foi significativamente reforçada, com a entrada em serviço de fragatas, patrulhas e draga-minas, destacando-se as fragatas Diogo Cão, Corte Real e Pero Escobar. A Marinha passou também a operar progressivamente segundo os padrões, procedimentos e doutrinas da NATO. A maioria dos novos meios teve origem nos........
