Ormuz será o teste do algodão para a hegemonia futura do petróleo?
A atual crise energética, desencadeada pelo bloqueio do Estreito de Ormuz, distingue-se claramente das anteriores. Apesar de apresentar riscos elevados, nomeadamente ao nível do fornecimento de petróleo e derivados, os seus impactos económicos têm sido, pelo menos até ao momento, muito mais contidos do que em crises anteriores, como os choques petrolíferos da década de 1970 ou a crise energética de 2022. As crises devem ser vistas e analisadas com os olhos de hoje e não com os olhos de há quatro anos ou da década de 1970. A atual crise energética pode nem chegar a ser uma verdadeira crise.
No entanto, ao contrário da crise energética de 2022, o gás natural não tem sido o principal fator de instabilidade. Nos Estados Unidos, a principal referência para o gás natural, o Henry Hub, recuou para cerca de 2,68 dólares por MMBtu (unidade patrão de medida de energia), abaixo dos níveis anteriores ao conflito. Na Europa, o TTF holandês subiu de 30 para 60 euros por MWh, tendo, entretanto, recuado para 39 euros, um valor muito inferior ao máximo de cerca de 350 euros em agosto de 2022.
Isto indica que, apesar da tensão geopolítica, não se verifica, para já, qualquer crise generalizada no mercado de gás. Dado o papel relevante do gás natural na produção de eletricidade na Europa, esta estabilidade tem também evitado qualquer crise nos mercados elétricos.
A menor intensidade energética das economias modernas ajuda a explicar esta resiliência. Desde os choques petrolíferos dos anos 70, as economias ocidentais reduziram significativamente a sua dependência energética. Os EUA tornaram-se autossuficientes, enquanto a Europa diversificou as suas fontes de energia e reforçou o peso das energias renováveis após 2022. A energia tem hoje um menor peso no PIB, reduzindo o impacto direto de choques nos preços.
A China é um exemplo paradigmático desta transformação. O petróleo representa apenas 19% do seu consumo energético atualmente, sendo o país menos dependente do petróleo do mundo, a par da Islândia. Apesar de continuar muito dependente de combustíveis fósseis, devido ao elevado peso do carvão, mais de 90% deste é produzido internamente, e a diversificação do mix energético mitiga parcialmente os efeitos da atual crise. A crescente eletrificação da economia chinesa também afasta os efeitos nefastos da subida da cotação do crude.
Mesmo assim, o bloqueio do Estreito de Ormuz representa um risco elevado. Trata-se de um dos principais gargalos do comércio energético global, por onde passa uma parte significativa do petróleo mundial. Historicamente, eventos com impacto semelhante, como os choques petrolíferos da década de 1970 ou a invasão do Kuwait em 1990 e a consequente Primeira Guerra do Golfo, tiveram consequências económicas mais visíveis, incluindo recessões e períodos de estagflação, ao contrário de conflitos mais recentes, como a guerra do Iraque em 2003, cujo impacto macroeconómico foi mais limitado.
Apesar disso, os mercados financeiros têm mostrado resiliência e o principal índice acionista norte-americano, o S&P 500, depois de recuar mais de 10% face aos máximos recentes, está novamente em máximos históricos, enquanto os principais índices europeus estão a apenas 1% de recordes. Esta reação contida reflete uma menor vulnerabilidade estrutural das economias globais face a choques petrolíferos.
O petróleo continua a ser o principal motor da economia global, mas tem vindo a perder a sua hegemonia a cada ano que passa. Tal como destronou o carvão, sem que este tenha desaparecido, é provável que venha também a ser ultrapassado, nas próximas décadas, por tecnologias mais avançadas de energia nuclear, pelo crescente recurso às fontes renováveis ou por outras formas de energia futuras — embora, à semelhança do carvão, deva continuar a integrar o mix energético. Já no início do século XIX, o carvão havia substituído gradualmente a biomassa como principal fonte de energia. Ainda assim, a madeira e a lenha continuam a ter um papel no mix energético, embora hoje com um peso mais residual.
A evolução das cotações do cobre e do ouro nos últimos quatro anos revela, em parte, uma diminuição da relevância do petróleo como indicador da atividade económica. O cobre, enquanto principal metal industrial a nível global, é um dos mais importantes barómetros da atividade económica. Já o petróleo tende a refletir mais diretamente pressões inflacionistas, sobretudo em contextos de conflitos, tensões geopolíticas — particularmente em regiões com elevada produção de combustíveis fosseis — ou recessões económicas globais. Ainda assim, o petróleo tem tido também um papel relevante como indicador da atividade económica, embora esse papel pareça agora menos evidente, tendo perdido parte do seu poder preditivo nos últimos quatro anos.
Desde a crise energética de 2022, ditada pela invasão russa da Ucrânia, o preço do cobre quase duplicou, enquanto o petróleo perdeu cerca de 25%. Este comportamento divergente não é habitual e, neste período, o cobre revelou-se um indicador mais fiável da evolução económica global, pois não se verificou uma desaceleração económica.
Apesar de sinais de perda de hegemonia, o consumo global de petróleo continua elevado, tendo passado de cerca de 50 milhões de barris por dia na década de 1970 para aproximadamente 75 milhões no final dos anos 1990, atingindo atualmente valores à volta dos 100 milhões de barris diários. O aumento da oferta, nomeadamente nos EUA, e a crescente diversificação da matriz energética, com maior peso das energias renováveis, do nuclear e da eletrificação, têm diminuído a sensibilidade do petróleo ao crescimento económico.
Assim, enquanto o cobre permanece um indicador mais “limpo” da atividade económica, o petróleo reflete sobretudo dinâmicas próprias do mercado energético, tensões geopolíticas e a evolução da inflação, embora também tenha perdido alguma da sua capacidade preditiva dos preços no consumidor — em parte devido ao crescente peso da eletricidade — e ainda mais da atividade económica.
