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Irão, o nó do século

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03.03.2026

Há países que se descrevem com adjetivos — “autoritário”, “teocrático”, “revisionista” — e há países que só se compreendem com um mapa. O Irão pertence às duas categorias. Olhar para Teerão apenas como regime sitiado, ou “problema nuclear”, é esquecer que a República Islâmica é, antes de tudo, um nó, um corredor e uma dobradiça. Uma dobradiça entre o Golfo e o Cáucaso, entre a Ásia Central e o Índico, entre a energia e as rotas, entre a guerra por procuração e a guerra industrial do século XXI. É por isso que a conversa recorrente de que “o regime cai com meia dúzia de ataques” ou “isto resolve-se com mais uma ronda negocial” falha o essencial. O Irão não é espuma, é estrutura. E, quando estruturas caem, caem com estrondo e efeitos secundários que raramente cabem nos comunicados de imprensa.

Comecemos pelo dado que explica metade das reações nervosas do mundo: Ormuz. Em 2024, passaram pelo estreito de Ormuz cerca de 20 milhões de barris por dia, o equivalente a aproximadamente 20% do consumo mundial de líquidos petrolíferos. No gás, a dependência é igualmente impressionante: cerca de 20% do comércio global de gás natural liquefeito transita por ali, sobretudo a partir do Catar. O planeta que tenta eletrificar-se, com boa consciência, continua a mover-se, ainda e muito, a petróleo e gás. Quem controla o risco em Ormuz controla prémios de seguro, inflação importada, cadeias logísticas e, em última instância, eleições. O Irão sabe-o. A China sabe-o melhor do que ninguém. E a Europa, que gosta de falar de “autonomia estratégica”, lembra-se de Ormuz sempre que o preço na bomba começa a contar votos.

Mas o Irão não é apenas gargalo marítimo, é também ponte terrestre, e é aqui que a análise tem de subir de patamar. A Índia, potência demográfica e tecnológica que se recusa a ser satélite de qualquer bloco, olha para o Irão como acesso indispensável à Eurásia, precisamente porque o mapa tem uma fronteira chamada Paquistão. Daí o interesse indiano em Chabahar, porto no golfo de Omã, e a ambição de ligar esse ponto ao grande projeto dos corredores, o INSTC, rede que pretende encurtar tempo e custo no transporte entre a Índia, o Irão, o Cáspio, a Rússia e, por arrasto, a Europa. Quando se fala de “rotas comerciais” como se fossem uma abstração, é isto: infraestruturas que contornam bloqueios políticos, corredores que reduzem dependências e um Irão que, mesmo........

© Expresso