Irão, o nó do século
Há países que se descrevem com adjetivos — “autoritário”, “teocrático”, “revisionista” — e há países que só se compreendem com um mapa. O Irão pertence às duas categorias. Olhar para Teerão apenas como regime sitiado, ou “problema nuclear”, é esquecer que a República Islâmica é, antes de tudo, um nó, um corredor e uma dobradiça. Uma dobradiça entre o Golfo e o Cáucaso, entre a Ásia Central e o Índico, entre a energia e as rotas, entre a guerra por procuração e a guerra industrial do século XXI. É por isso que a conversa recorrente de que “o regime cai com meia dúzia de ataques” ou “isto resolve-se com mais uma ronda negocial” falha o essencial. O Irão não é espuma, é estrutura. E, quando estruturas caem, caem com estrondo e efeitos secundários que raramente cabem nos comunicados de imprensa.
Comecemos pelo dado que explica metade das reações nervosas do mundo: Ormuz. Em 2024, passaram pelo estreito de Ormuz cerca de 20 milhões de barris por dia, o equivalente a aproximadamente 20% do consumo mundial de líquidos petrolíferos. No gás, a dependência é igualmente impressionante: cerca de 20% do comércio global de gás natural liquefeito transita por ali, sobretudo a partir do Catar. O planeta que tenta eletrificar-se, com boa consciência, continua a mover-se, ainda e muito, a petróleo e gás. Quem controla o risco em Ormuz controla prémios de seguro, inflação importada, cadeias logísticas e, em última instância, eleições. O Irão sabe-o. A China sabe-o melhor do que ninguém. E a Europa, que gosta de falar de “autonomia estratégica”, lembra-se de Ormuz sempre que o preço na bomba começa a contar votos.
Mas o Irão não é apenas gargalo marítimo, é também ponte terrestre, e é aqui que a análise tem de subir de patamar. A Índia, potência demográfica e tecnológica que se recusa a ser satélite de qualquer bloco, olha para o Irão como acesso indispensável à Eurásia, precisamente porque o mapa tem uma fronteira chamada Paquistão. Daí o interesse indiano em Chabahar, porto no golfo de Omã, e a ambição de ligar esse ponto ao grande projeto dos corredores, o INSTC, rede que pretende encurtar tempo e custo no transporte entre a Índia, o Irão, o Cáspio, a Rússia e, por arrasto, a Europa. Quando se fala de “rotas comerciais” como se fossem uma abstração, é isto: infraestruturas que contornam bloqueios políticos, corredores que reduzem dependências e um Irão que, mesmo sancionado, continua a ser geografia com valor de mercado.
E aqui entra a China também, não como personagem secundária, mas como coautora do enredo. Pequim não “apoia” Teerão por afinidade ideológica, apoia-o porque a República Islâmica é, para a República Popular, uma mistura perfeita de três coisas: energia, profundidade estratégica e oportunidade de testar uma diplomacia de sanções paralelas. O Irão oferece petróleo e gás com desconto e em volumes que alimentam uma economia gigante. E, ao fazê-lo, oferece também um princípio político: o de que existe vida, comércio e tecnologia fora do perímetro ocidental. A China oferece ao Irão aquilo de que um regime sancionado mais precisa: oxigénio económico, canais financeiros, apoio militar, compras de energia, e uma margem diplomática que transforma a palavra “isolamento” num exagero conveniente.
Maria João Tomás
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A Rússia completa o triângulo, mas com uma lógica ainda mais crua, a lógica da guerra. A cooperação militar entre Moscovo e Teerão, visível no domínio dos drones e dos mísseis, tornou-se um capítulo prático da guerra na Ucrânia. A União Europeia tem prolongado e alargado sanções precisamente por causa do apoio militar iraniano à agressão russa, e, em janeiro de 2026, impôs novas medidas, citando, em simultâneo, violações graves de direitos humanos e apoio continuado à guerra russa. O Irão não é apenas um ator regional, é fornecedor, laboratório e acelerador de uma guerra europeia. Quem ainda insiste em separar “Médio Oriente” de “Europa” não está a acompanhar este século, está a reler o anterior.
Há, depois, a dimensão que muitos preferem empurrar para rodapé, por desconforto moral ou por cansaço: o regime. A República Islâmica está instalada há quase meio século, desde 1979, e não é apenas um Governo, é um ecossistema. Infiltrou-se na economia, nas fundações, nas redes de patronagem, na indústria, na tecnologia, e, sobretudo, nos aparelhos de segurança. Derrubar um ecossistema não é como mudar um gabinete. É por isso que o Irão resiste, mesmo quando parece apodrecer por dentro. Sem intervenção militar terrestre, o que seria ainda um caos pior, será difícil alterar seja o que for, e muito menos derrubar o regime.
Os protestos de janeiro e fevereiro e a repressão que os acompanhou são um lembrete brutal desse enraizamento. Há uma disputa feroz sobre números, com o problema adicional de um Estado que controla a informação e, quando precisa, desliga o país. Organizações de direitos humanos apontaram para “milhares” de mortos e evidência crescente de massacres à escala nacional, enquanto investigações jornalísticas relataram alegações de dezenas de milhares de mortos e esforços sistemáticos de ocultação, mas o número parece andar nos 40 mil mortos. E, quando a conectividade nacional cai para níveis residuais, não é apenas censura, é técnica de governação: cortar o nervo que liga a rua ao mundo. A NetBlocks reportou recentemente uma queda para cerca de 4% dos níveis habituais, sinal clássico de que o regime trata a informação como trata a rua, com controlo total.
Aqui entra a sociologia, que complica qualquer fantasia de “mudança rápida”. O Irão urbano, jovem, mais cosmopolita, que vive em Teerão, Isfahan ou Shiraz, tem uma relação com o mundo, com a cultura e com a política que choca com a teocracia. Existe, porém, um Irão periférico, rural, conservador, dependente de redes religiosas e de subsistência, onde a fidelidade ao regime pode ser menos ideológica e mais material, onde a religião funciona também como pertença e proteção. Um país assim não se parte ao meio com uma guerra de bombardeamentos, parte-se ao meio com fraturas longas e essas, apesar de serem enormes, precisam ainda de uma maior rutura.
E não são apenas fraturas sociais, são também étnicas e territoriais. O Irão é um mosaico: persas, azeris, curdos, lures, árabes, baluques, turcomenos, e outras comunidades. Isto importa por uma razão simples: qualquer transição política séria, democrática e estável teria de lidar com o desenho do Estado, com autonomia local, representação, fronteiras internas, e com o efeito dominó em países vizinhos onde as mesmas identidades atravessam fronteiras, do Iraque à Turquia, do Paquistão ao Afeganistão. O capítulo curdo, por exemplo, não é um detalhe, é um detonador regional forte.
A isto soma-se o “outro Irão”, o exterior. O regime construiu, ao longo de décadas, uma política de profundidade estratégica através de proxies, Hezbollah, Hamas, hutis, milícias diversas, um arquipélago armado que serve como escudo avançado e instrumento de dissuasão, que parece adormecido, mas poderá eclodir a qualquer momento.
Chame-se-lhe “Eixo da Resistência” ou rede de influência, o efeito é o mesmo, uma capacidade de transformar um choque local num incêndio regional. E a política externa iraniana aprendeu, como poucas, a arte de operar na zona cinzenta, negação plausível, intermediários, financiamento opaco, ligações em teatros improváveis. Quem quer que suba ao poder em Teerão herda esse passivo e esse ativo, e nenhum dos dois desaparece com a queda do líder supremo.
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wenjin chen
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Chegamos ao ponto que muitos subestimam: a mudança de regime como produto de importação. A ideia de que Washington e Telavive podem “impor” um líder vindo de fora, por exemplo o filho do xá, parece sedutora para quem procura um símbolo e um atalho. Mas símbolos não governam países e atalhos e, na política internacional, costumam acabar em precipício. Basta lembrar o Afeganistão ou a Líbia. O risco é criar uma figura com visibilidade mediática e pouca capilaridade interna, uma espécie de oposição telegénica, aplaudida em conferências, mas incapaz de organizar um Estado com forças armadas, serviços, clãs económicos e militares, tensões étnicas e vizinhança predatória. A História está cheia de exílios que regressam como solução e acabam como problema.
No fundo, o dilema do Irão é este: é demasiado importante para cair “às três pancadas” e demasiado perigoso para ser deixado como está. Para a China, é uma peça de energia e de autonomia estratégica. Para a Rússia, é um parceiro de guerra e de sobrevivência. Para a Índia, é um corredor e uma alternativa ao estrangulamento geopolítico. Para o Paquistão, potência nuclear e país muçulmano, é vizinho, inspiração, rival e risco, em graus variáveis conforme o dia. Para a Europa, é simultaneamente ameaça, fornecedor indireto de instabilidade, terrorismo, populismo e gatilho de inflação. Para os iranianos, é o lugar onde vivem, com a coragem de sair à rua e o medo de pagar o preço.
Quando se percebe isto, percebe-se também por que razão o Irão não cabe na espuma dos dias. O Irão é um nó do século. Mexer nesse nó pode desatar uma corda ou pode estrangular uma região inteira. E, antes de celebrar quedas fáceis ou negociar compromissos fáceis, convinha lembrar o que o mapa sempre soube, Teerão não é apenas uma capital, é uma encruzilhada.
