Mr. JK Rowling, a única coisa que nós matámos foi um homem
Há um tipo específico de cansaço que só quem é alvo de uma cruzada organizada conhece. Não é o cansaço de trabalhar muito. É o cansaço de acordar todos os dias e descobrir que alguém gastou dinheiro, tempo e advogados para garantir que continues a ser um problema a resolver.
Estamos exaustas. Não de existir. Dessa parte já tratámos. Estamos exaustas de ter de justificar a existência perante pessoas que nunca a questionaram a si próprias. Em maio de 2025, J. K. Rowling anunciou a criação do JK Rowling Women's Fund. Um fundo privado, financiado com a sua fortuna pessoal, dedicado a financiar ações legais contra os direitos das pessoas trans.
A autora, cujo património é estimado em mais de mil milhões de dólares, acumulado maioritariamente com a venda de livros a crianças, decidiu que a melhor aplicação desse dinheiro era garantir que mulheres trans fossem excluídas da definição legal de mulher. Conseguiu. Em abril de 2025, o Supremo Tribunal britânico decidiu que a palavra mulher se refere exclusivamente ao sexo biológico. Rowling celebrou com uma fotografia a fumar um charuto e a beber um cocktail. A legenda: "Adoro quando um plano se concretiza." Não foi a primeira vez.
Em 2024 tinha doado 70 mil libras à organização For Women Scotland. A cada vitória legal, uma fotografia comemorativa. A cada derrota dos nossos direitos, um charuto. Há uma ironia que não consigo deixar passar. A milionária publicou os seus primeiros livros como J. K. e não como Joanne Rowling por uma razão simples: o seu editor achava que rapazes não comprariam um livro escrito por uma mulher. Usou as iniciais para ocultar o género. Navegou pela ambiguidade do nome para aceder a um privilégio que o mercado reservava à masculinidade. JK.
Duas letras escolhidas para que o mercado não soubesse que era mulher. Em termos de identidade, isso chama-se passing ou passabilidade. Ela sabe exatamente o que custa. Apenas decidiu que só valia a pena quando as recompensas eram para si. E agora usa o dinheiro que ganhou a fazer isso para garantir que as fronteiras entre géneros sejam intransponíveis para toda a gente. A género-planista mais rica do mundo faz o equivalente literário daquele homem que explica feminismo às mulheres numa festa.
Está absolutamente convicta de que sabe mais sobre ser mulher do que as mulheres que o sistema recusou reconhecer como tal. Ao fazê-lo, torna-se guardiã da mesma prisão que a limitou a ela. Ela construiu um mundo onde o vilão era aquele que marcava as pessoas ao nascer e se recusava a deixá-las tornar-se quem eram. Depois tornou-se igual a ele. Quando uma mulher se torna inimiga das mulheres trans, torna-se inimiga da sua própria condição. A nossa existência não é apenas familiar ao feminismo. É constitutiva dele.
Sobrevivemos ao sistema que nos queria invisíveis, patologizadas, apagadas. E ao sobrevivermos, denunciamos o que esse sistema faz a toda a gente: a obrigação de caber numa categoria que não escolhemos. Há ainda uma coisa que ninguém diz com a clareza que merece. Nós fomos educadas para odiar tudo o que é feminino. Aprendemos a desprezá-lo antes de perceber que éramos isso. Internalizámos o machismo antes de ter palavras para ele. E ainda assim estamos aqui, contra todas as convenções, a matar aos poucos a socialização masculina dentro de nós, um gesto, uma palavra, uma escolha de cada vez.
É um trabalho que a maioria das mulheres cis nunca teve de fazer de forma tão consciente e tão custosa. Como é que nos podem acusar de não defender as mulheres? Como é que nos podem apresentar como motivo de medo? Como dizia Keyla Brasil, atriz travesti que ocupou o palco do Teatro São Luiz para exigir representatividade trans: a única coisa que nós matámos foi um homem. A misoginia é a raiz da transfobia. Do machismo. Da homofobia. São galhos diferentes da mesma árvore.
A luta das mulheres trans é inseparável da luta das mulheres. Não por bondade. Por geometria. Somos tão poucas que as nossas vidas estão, de facto, nas mãos das mulheres que nos rodeiam. Que razão teríamos para vos atacar? Na realidade, desviar alguns machos da vossa direção é um favor que vos fazemos. Somos protetoras. Não ameaças. Pedro Pascal, irmão de Lux Pascal, mulher trans, foi claro quando Rowling celebrou a decisão do Supremo britânico: não comprem mais nada de Harry Potter. Não a série da HBO. Não as atrações dos parques Universal. Não os livros. Não os jogos. Nada.
Tive de trazer uma referência cisgénero porque, sabem... homens gays. Mas esse tema fica para outro artigo. Não dá para separar a obra da autora quando a autora usa a obra para financiar o apagamento de pessoas reais. Percebo que é difícil. Harry Potter foi infância para muita gente. Foi magia, foi pertença, foi o livro que fez muitos de vocês gostar de ler. O meu irmão mais novo cresceu no imaginário do pequeno feiticeiro. Desculpa maninho, mas vai ter que ser. Não é desistir do passado, mas é pensar bem se mercece ter futuro. Há crianças reais, hoje, a crescer num mundo onde a autora dessa magia gasta milhões para garantir que não existam legalmente. Que sejam tratadas como perturbações a corrigir.
A magia que ela vendeu nunca existiu para nós. Estamos exaustas de explicar isto. Estamos exaustas de ser o tema do debate enquanto não somos convidadas para o debate. Estamos exaustas de ver os nossos direitos votados, financiados contra, celebrados com charutos, discutidos em plenários onde a maioria nunca conheceu uma pessoa trans de verdade. Estamos exaustas. E ainda assim continuamos.
Porque a alternativa é desaparecer. E já desaparecemos demasiado tempo. O boicote não é vingança. É higiene. É a decisão de não financiar, com o nosso dinheiro e o da nossa rede, uma cruzada contra a nossa existência. Não comprem magia de quem quer fazer desaparecer seres humanos reais.
