Um mundo que está estreito
Há dois estreitos que ajudam a explicar o mundo em que vivemos. Um já pesa no bolso dos portugueses. O outro ainda parece distante, mas pode vir a pesar na economia europeia com uma violência que nenhum comunicado diplomático conseguirá amortecer.
O primeiro chama-se Ormuz. O segundo chama-se Taiwan.
À primeira vista, parecem problemas de mapas longínquos. Mas essa é uma das ilusões mais perigosas do nosso tempo: a ideia de que a geografia distante não entra pela nossa vida dentro. Entra no preço dos combustíveis, na factura da electricidade, no custo dos alimentos, na produção industrial, nos telemóveis, nos hospitais, nas comunicações e nos sistemas de defesa.
O mundo está mais estreito. E Portugal continua muitas vezes a discuti-lo como se ainda fosse largo.
O Estreito de Ormuz separa o Irão de Omã e dos Emirados Árabes Unidos e é uma das passagens marítimas mais importantes do planeta. Quando a tensão sobe no Golfo Pérsico ou quando Teerão ameaça fechar a passagem, os mercados não esperam por comunicados oficiais. Reagem.
O crude sobe. Os combustíveis sobem. A electricidade sobe. O transporte fica mais caro. A produção agrícola fica mais cara. A indústria fica mais cara. E o português que vai abastecer o carro sente no ecrã da bomba de combustível o preço de uma geografia que nunca estudou.
Ormuz não é uma abstracção. Ormuz é a factura.
Uma política externa séria não pode ser apenas uma sucessão de frases prudentes sobre paz, estabilidade e diálogo. A paz é essencial. O diálogo é essencial. Mas nenhum país responsável se limita a desejar........
