O país que arde, inunda e esquece
Há sempre um momento em que o país pára. Pára para ver as imagens. Pára para comentar. Pára para se comover. Depois, volta a andar, como se nada fosse e, se calhar, para muitos, nada é.
Fevereiro foi mês de debates, sondagens e presidenciais. Discutiram-se perfis, estilos e cenários políticos, quase como se fossem abstracções de um jogo distante. Ao mesmo tempo, porém, há territórios onde a tragédia insiste em permanecer. Casas destruídas. Encostas instáveis. Infra-estruturas que continuam à espera de soluções definitivas.
A história parece ser cíclica. Sempre que a tragédia acontece, os especialistas comentam, as imagens impressionam e a atenção vira-se. Entretanto, o tempo passa, o sol regressa e o foco dos noticiários muda. O silêncio volta a ocupar o espaço. E não é por falta de urgência, mas sim por hábito de esquecimento. A tragédia sai dos ecrãs, mas não sai da vida de quem lá vive. E dificilmente sairá.
Recorde-se que, nos incêndios de 2017, morreram mais de uma centena de pessoas e arderam mais de 500 mil hectares. Foi um trauma colectivo que prometemos não repetir. Na sequência disso, reformaram-se estruturas, reforçou-se a coordenação e investiu-se em meios. A Autoridade Nacional de Emergência e Protecção Civil está hoje mais preparada do que estava há vinte ou trinta anos. Isso é inegável. Ainda assim, continuamos a falhar onde tudo começa: antes da emergência. Continuamos a limpar depois de arder. Continuamos a desassorear depois de inundar. Continuamos a reforçar........
