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Uma Europa entre o imperativo geopolítico e a paralisia da vontade política

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30.03.2026

Quando Friedrich Merz declarou, na noite da sua vitória eleitoral de fevereiro de 2025, que havia chegado "a hora da independência" da Europa, fez questão de acrescentar que a própria formulação o surpreendera em voz alta. Essa hesitação não era fraqueza nem modéstia retórica — era o sinal de algo mais profundo: um continente a tentar verbalizar aquilo que ainda não sabe ao certo como executar. A frase existiu antes da estratégia. O diagnóstico chegou antes da cura. E é precisamente nessa fissura entre o que se sabe e o que se faz que reside o verdadeiro drama central da Europa do nosso tempo.

Porque o problema da União não é de conhecimento: é de coragem. Os relatórios de Enrico Letta e Mario Draghi mapearam com precisão cirúrgica as fragilidades estruturais do projeto europeu — dependência energética, atraso tecnológico, fragmentação do mercado de capitais, anemia da política de defesa. As soluções existem, foram debatidas exaustivamente. O que falta é a coligação de vontades capaz de as executar, um défice que não é acidental, mas o legado de décadas de integração deliberadamente construída para avançar abaixo dos radares políticos nacionais, esperando que a convergência económica gerasse, quase por osmose, uma unidade política que nunca se concretizou.

Durante 30 anos, a Europa beneficiou de uma constelação de condições que, em retrospetiva, parecem demasiado favoráveis para serem sustentáveis. O guarda-chuva militar americano libertou os orçamentos nacionais do peso da defesa. O gás russo chegava barato e abundante, alimentando a indústria exportadora alemã que funcionava como motor económico de todo o continente. A China comprava o que a Europa produzia e vendia tecnologia verde a preços que aceleravam a descarbonização. Era um equilíbrio perfeito — e os equilíbrios perfeitos duram apenas enquanto nenhuma das suas peças se move. Todas se moveram em simultâneo.

A invasão russa da Ucrânia não foi apenas uma agressão territorial: foi o colapso de uma ilusão estratégica. A Europa descobriu, da forma mais brutal, que havia construído a sua prosperidade sobre areia geopolítica. O gás russo tornou-se arma. A interdependência económica, que deveria garantir........

© Expresso