Uma Europa entre o imperativo geopolítico e a paralisia da vontade política
Quando Friedrich Merz declarou, na noite da sua vitória eleitoral de fevereiro de 2025, que havia chegado "a hora da independência" da Europa, fez questão de acrescentar que a própria formulação o surpreendera em voz alta. Essa hesitação não era fraqueza nem modéstia retórica — era o sinal de algo mais profundo: um continente a tentar verbalizar aquilo que ainda não sabe ao certo como executar. A frase existiu antes da estratégia. O diagnóstico chegou antes da cura. E é precisamente nessa fissura entre o que se sabe e o que se faz que reside o verdadeiro drama central da Europa do nosso tempo.
Porque o problema da União não é de conhecimento: é de coragem. Os relatórios de Enrico Letta e Mario Draghi mapearam com precisão cirúrgica as fragilidades estruturais do projeto europeu — dependência energética, atraso tecnológico, fragmentação do mercado de capitais, anemia da política de defesa. As soluções existem, foram debatidas exaustivamente. O que falta é a coligação de vontades capaz de as executar, um défice que não é acidental, mas o legado de décadas de integração deliberadamente construída para avançar abaixo dos radares políticos nacionais, esperando que a convergência económica gerasse, quase por osmose, uma unidade política que nunca se concretizou.
Durante 30 anos, a Europa beneficiou de uma constelação de condições que, em retrospetiva, parecem demasiado favoráveis para serem sustentáveis. O guarda-chuva militar americano libertou os orçamentos nacionais do peso da defesa. O gás russo chegava barato e abundante, alimentando a indústria exportadora alemã que funcionava como motor económico de todo o continente. A China comprava o que a Europa produzia e vendia tecnologia verde a preços que aceleravam a descarbonização. Era um equilíbrio perfeito — e os equilíbrios perfeitos duram apenas enquanto nenhuma das suas peças se move. Todas se moveram em simultâneo.
A invasão russa da Ucrânia não foi apenas uma agressão territorial: foi o colapso de uma ilusão estratégica. A Europa descobriu, da forma mais brutal, que havia construído a sua prosperidade sobre areia geopolítica. O gás russo tornou-se arma. A interdependência económica, que deveria garantir........
