E se deixássemos de perguntar de onde vêm?
Há dias em que saímos de casa convencidos de que nada de particularmente interessante vai acontecer. Foi o que pensei naquela manhã, quando parei numa bomba de gasolina para abastecer o carro. Enquanto esperava para pagar, a senhora da caixa olhou para mim com aquela curiosidade tão portuguesa que não chega a ser falta de educação, mas também não consegue fingir indiferença.
- “Desculpe... é brasileira?”
Sorri e respondi que tinha aprendido muito com os brasileiros com quem trabalho. Não porque fosse a primeira vez que me faziam aquela pergunta, mas porque já percebi que ela costuma dizer mais sobre quem a faz do que sobre quem a recebe.
-“Por acaso, adorava viver no Brasil.”
A senhora ficou em silêncio durante alguns segundos. Depois sorriu e respondeu-me que nunca tinha ouvido um português dizer aquilo. A conversa terminou ali, mas eu saí da bomba de gasolina a pensar que, afinal, ela não me tinha perguntado se eu era brasileira. Tinha-me questionado, sem saber, o que eu pensava dos brasileiros.
Os portugueses têm uma relação curiosa com os sotaques. Somos capazes de identificar alguém ao fim de duas frases. Descobrimos se é de Trás-os-Montes, do Alentejo ou dos Açores com uma facilidade impressionante. Mas, quando o sotaque vem do outro lado do Atlântico, há qualquer coisa que muda. Talvez seja curiosidade, proximidade ou simplesmente surpresa.
Um sotaque diz-nos apenas de onde alguém vem. Não nos diz porque veio, o que deixou para trás, quantas vezes duvidou da decisão que tomou ou o que espera encontrar quando chega.
Enquanto a imigração é apenas um tema de debate, é........
