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A aversão à opinião dissonante

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19.03.2026

A democracia portuguesa vive graves problemas porque os principais partidos vivem enormes disfunções democráticas, porque deixou de haver o cuidado de ponderar, de ver mais longe, de acolher ideias criando redes interligadas de opções políticas.

Em toda a sua vida de líder partidário, Soares só viveu um congresso em que não teve desarmonia. Era o debate vivo que ele sempre entendeu ser uma das marcas do PS.

O PPD/PSD tem uma vida partidária muito mais participada nas bases do que a do PS. Nos seus congressos, mesmo que não haja listas para a direção, há sempre outras opções que elegem militantes para o Conselho Nacional. O PS habituou-se à unanimidade fruto da longa vida no poder, quase afastou o confronto e o debate sobre o futuro.

À medida que o partido dos socialistas envelhece, perde as forças mais dinâmicas e se funcionaliza em torno dos aparelhos autárquicos, o debate interno enfraquece, o apontar de outros caminhos é entendido como sendo “jogo do inimigo”.

Há, neste tipo de reações, o seu quê de salazarismo. O país viveu muito tempo numa espécie de censura autoimposta, é o princípio de que não se fala mal da família fora de portas. À pergunta – por que não falas dentro do partido? – a resposta é sempre a mesma – em que concelhias e federações se pode fazer discussão político séria?

Ora, quem assim pensa e age, normalmente os próximos do poder circunstancial, esquecem uma coisa simples – um partido não é um clube social, deve ter sempre presente que o debate interno é feito com os olhos e os ouvidos de todos, mas mesmo todos, os portugueses.

No meio de tudo isto, assiste-se a comportamentos que não são avisados pela lei de Maquiavel.

Quando um qualquer político apoiante do Governo exalta um qualquer agente partidário da oposição, está a fazer duas coisas: 1ª - encher o ego deste; 2ª - elogiar opções que não fazem cócegas ao poder instituído.

Ora, um líder político deve impor limitações ao seu próprio ego, não precisa dos elogios do “inimigo” para elevar a sua autoestima e deve esperar o pior se desse “inimigo” resultar a apreciação benfazeja das suas características pessoais ou das suas posições estratégicas.

A vulgarização do acesso a cargos relevantes da política portuguesa reduz, nos dias de hoje, a capacidade para a discordância e para o confronto.

Nenhum político português que tenha sido Presidente da República ou Primeiro Ministro chegou às funções sem ter tido tempos de rotura e tempos de agregação. Nem Sá Carneiro, nem Pinto Balsemão, nem Cavaco Silva, nem Marcelo Rebelo de Sousa, nem Durão Barroso, nem Passos Coelho ou Luis Montenegro. Todos tiveram, a cada circunstância, grandes embates internos.

No mesmo sentido, nem Mário Soares, nem Vítor Constâncio, nem Jorge Sampaio, nem António Guterres, nem José Sócrates, nem António José Seguro, nem António Costa chegaram à liderança sem oposição forte e sem um debate interno intenso que, não raro, criou zangas pessoais.

No tempo que vivemos, Passos Coelho introduz no PPD/PSD uma grande polémica sobre o futuro da governação. Ele é bem claro sobre o caminho que o seu partido deve seguir - a federação de todas as direitas para mudar radicalmente as estruturas públicas e acabar com o Estado Social. Sob o ponto de vista histórico, olhando o que foi a direita portuguesa no passado, a opinião do antigo primeiro ministro faz sentido.

Esperava-se que no principal partido da oposição, o PS, um debate igualmente amplo fosse feito, que caminho devem fazer os socialistas para voltarem a contar no quadro parlamentar português. Mas não! Velho, cansado, atacado pelo aparelhismo, incapaz de aceitar opiniões de que há caminhos diferentes a fazer, o que assistimos é à negação do PS de Soares e à sua transformação numa confluência de interesses pessoais mesquinhos.

A democracia portuguesa vive graves problemas porque os principais partidos vivem enormes disfunções democráticas, porque deixou de haver o cuidado de ponderar, de ver mais longe, de acolher ideias criando redes interligadas de opções políticas.

Se no PPD/PSD as questões ideológicas sempre foram pouco relevantes (o partido que se diz social democrata sempre foi, na prática, um partido da direita pragmática), no PS sempre se soube quais eram os caminhos que as diferentes sensibilidades pretendiam seguir. Ora, com exceção de 2015 (e dada a situação interna e externa que se vivia), o PS que governou com Soares, Guterres e Sócrates sempre foi um partido flexível que comunicou com todos os portugueses com vista à assunção de um Estado razoavelmente vigoroso para resolver os problemas dos marginalizados da economia capitalista e da caridade religiosa e, ao mesmo tempo, criar uma sociedade forte, dinâmica e autónoma.

As direções atuais do PPD/PSD e do PS têm sido de uma pobreza incrível. Montenegro, em vez de ponderar no que Passos vem dizendo, convoca um congresso e diz, como Valentim Loureiro: onde estão eles?

José Luís Carneiro, que pela sua experiência política saberá que só se deixa legado se não pedir licença para existir, convocou um congresso em que só falta um cantor pimba para animar. Ter 96% de votos dos militantes é tão relevante como uma viola num enterro. O PS exige mais dele neste tempo de incertezas.

Para os ganhos do Bloco Central dos interesses tudo vai bem. Montenegro vai alimentando os apaniguados; Carneiro é “tão bom rapaz” que gostam de o ver a não fazer nada para que a vida lhes possa corra mal.

Há, porém, um problema grave – assim o país não sai da cepa torta. E é este rame-rame que vai fazendo a vida do líder da direta radical populista, uma vez que a esquerda da esquerda, afirmada pelas escolas norte-americanas do marxismo cultural, também não é solução para nada.

Para quem gostava de ter um país dinâmico e uma democracia vibrante, o estado da arte é um enorme afogo. O PPD/PSD e o PS ou mudam, ou morrem.


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