Opinião | Não tem mais jogo com racismo: o futebol não merece atitudes paliativas ou frouxas
Mauro Beting: 'Nenhum jogador teve coragem de defender a própria pele como Vini Jr'
Brasileiro acusou adversário de racismo, mas ninguém foi punido, e ele levou amarelo.
- Negro, cabrón, recoge el algodón!
O zurro de muita gente no Santiago Bernabéu, em 1993, para o nigeriano Agbonavbare, goleiro do Rayo Vallecano. O melhor no empate com o Real Madrid. Na saída, madridista o xingou na TV, ao lado de adolescentes gritando “Ku Klux Kan”.
Eu já trabalhava na mídia. Mas só soube anos depois. Não repercutia o racismo. Ou “fazia parte do jogo”. Palavras do goleiro: “Fiz várias defesas. Normal que me xinguem pela cor”. Outros brasileiros pretos e mulatos sofriam na pele. Não abriam a boca. “Seria ainda pior se reclamasse. Os caras iriam me perseguir ainda mais”, relata quem há décadas ouve xingamentos. Mas não fala.
Filipe Luís cita ‘caso isolado’ em acusação de racismo a Vini Jr: ‘Palavra de um contra o outro’
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Mesmo solidário a Vinícius Jr., o Muhammad Ali do futebol. Pelo que apanha, pelo que reage, pela coragem de enfrentar o racismo e ameaças como um boneco com a camisa dele pendurado enforcado em um viaduto de Madri. Como se fosse as “estranhas frutas” da canção “Strange Fruit”, imortalizada por Billie Holiday.
Português não é racista. Espanhol, também não. Argentino não é. Generalizar também é preconceito. Benfica de Eusébio e Coluna, seus melhores, filhos de Moçambique, não pode ser racista. Mesmo tendo sido. O clube do zagueiro e bandeira encarnada Luisão, ídolo que foi diretor do clube, é humano e corajoso ao condenar o que ocorreu. Não pode institucionalmente um clube passar a mão na cabecinha pouco privilegiada do covarde que esconde a boca suja como Prestianni.
Não é lacração ou mimimi como os mimimizentos que dizem que o “mundo anda chato”... Vini já era vaiado antes do gol. Talvez pelo mesmo preconceito.
Se antes não se fazia nada, e já se desfazia tudo, passou da hora de o mundo do futebol parar a bola. Não tem jogo com racismo. Teve alguma atitude de nível baixo? Todos os atletas das duas equipes deixam o campo. Mesma história se for torcedor. Ele não merece futebol. O futebol não merece atitudes paliativas ou frouxas.
É preciso ter coragem contra quem não tem respeito e humanidade. Coragem para não ter jogo. Como fizeram PSG x Istambul Basaksehir, em Paris, quando o preconceito veio do quarto árbitro do jogo! Saíram de campo. Só teve jogo no dia seguinte. Vai continuar sem solução enquanto gente do futebol seguir achando que é do jogo o que não é da vida.
Racismo vai existir enquanto o bípede desumano seguir de quatro zurrando o que não sabe. Ser permissivo e/ou brando e branco demais, defendendo as cores do clube mais do que as da pele e da alma das pessoas, só piora o que já é o que há de pior.
