Opinião | Pela primeira vez em 370 anos, Reino Unido precisa mostrar que nem a família real está acima da lei
Quem é o ex-príncipe Andrew, o 1º do alto escalão da família real britânica a ser preso em 377 anos
Crédito: Edição: Laís Nagayama/Imagens de apoio: Michel Gangne, Pascal George, Justin Tallis, AFP, AP e BBC News
Andrew Mountbatten-Windsor é o primeiro membro da família real britânica em mais de 300 anos a ver o sol nascer quadrado.
Embora os franceses geralmente levem a fama, foram os ingleses os primeiros a decapitar um monarca, ainda no século 17, quando Charles I foi preso e morto por traição durante a Revolução Gloriosa.
À época, a disputa entre absolutistas e constitucionalista se misturou com as guerras religiosas que assolavam a Europa nos anos de 1600. Charles era o herdeiro da casa Stuart, católicos escoceses que chegaram ao trono londrino após Elizabeth Tudor morrer sem deixar descendentes. Ao mesmo tempo, o rei tentava impor suas vontades sobre o Parlamento em Westminster.
A Inglaterra era um bicho estranho na era absolutista. Ao contrário dos Bourbon, Bragança, Romanov e Habsburgo, as casas reais inglesas, desde a Baixa Idade Média, cederam parte do seu poder ao Parlamento, sobretudo a competência de cobrar impostos.
A tensão entre Charles, absolutista e próximo de setores católicos da sociedade inglesa, e o Parlamento, reformista e mais próximo dos protestantes, resultou na guerra civil.
Quem visita Londres e faz um desses tours a pé pela cidade frequentemente passa pelo que restou do Palácio de Whitehall, onde a cabeça de Charles foi exibida aos súditos como sinal do poder dos republicanos liderados por Oliver Cromwell.
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Ali, o guia costuma explicar que mesmo com a restauração que se seguiu após o período de Cromwell, nunca mais os monarcas britânicos desafiaram o Estado de Direito. Do século 17 em diante, a Inglaterra se tornaria um Estado-nação moderno, e depois potência global dominante até a 2ª Guerra.
Desde 1945, Londres foi suplantada pela ex-colônia que habita o outro lado do Atlântico, que desde sua origem, era identificada com os ideais iluministas franceses de separação de poderes, republicanismo e direito a um julgamento justo. Falo, é claro, dos Estados Unidos.
O escândalo de Jeffrey Epstein, de muitas maneiras, coloca em xeque um conceito simples sobre o qual está assentada toda a sociedade moderna: todos são iguais perante a lei.
Andrew é suspeito de má conduta no serviço público. Há relatos nos arquivos de Epstein de que ele teria enviado segredos do Estado britânico ao financista acusado de tráfico sexual de menores.
Mountbatten-Windsor, evidentemente, merece o direito a ampla defesa. Mas ele responderá por isso.
No caso no qual ele foi acusado de estupro por Virginia Giuffre, uma das vítimas de Epstein, Andrew fez um acordo na Justiça americana para o caso ser arquivado mediante pagamento de indenização. As cortes britânicas não receberam, até agora, uma denúncia sobre o caso.
Charles III, irmão de Andrew, talvez sabedor da grande ameaça que pesou sobre a monarquia quando seu antepassado distante ousou violar a lei, lavou as mãos. O suspeito responderá sobre seus crimes.
Outros homens poderosos na lista de Epstein, no entanto, de sangue azul ou não, seguem sem responder na Justiça pelas suspeitas que pesam contra eles.
