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Opinião | O encontro desmarcado: não há liderança política capaz de trazer o ajuste fiscal para o debate

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22.02.2026

As marcas da atual gestão da economia saltam aos olhos e, curiosamente, não alimentam maiores controvérsias. Temos um crescimento econômico menos exuberante. O crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) nesses quatro anos do Lula 3 deve ficar em pouco mais que 11%. É bem menos do que nos tempos de Lula 1 (14,8%) ou Lula 2 (19,7%), mas o suficiente para derrubar a taxa de desemprego para mínimos históricos. O crescimento nanico tem relação com as taxas de juros exorbitantes.

Estimam-se os juros reais no Lula 3 na casa de 37%, o que é menos do que os assustadores 53% do Lula 1, mas acima dos 24,3% de juros reais no Lula 2. De diferente mesmo temos o resultado fiscal. O déficit primário do Lula 3 está previsto para superar R$ 400 bilhões (em valores não ajustados pela inflação), o que contrasta com os polpudos superávits fiscais do Lula 1 e Lula 2.

O resultado dessa mixórdia é o crescimento acelerado da dívida pública. A relação entre a dívida bruta e o PIB pode fechar o ano acima de 83%, o que representa um crescimento de quase 12 pontos porcentuais durante a atual gestão (esse indicador era de 55,5% no final do Lula 1 e, mais interessante, 51,8% no final do Lula 2).

O crescimento da dívida pública é o núcleo duro do debate econômico. A ideia de que esse tema será central na campanha presidencial padece, no entanto, de uma ingenuidade comovente. O eleitor não está preocupado com tamanha abstração. Não é assim que funciona. Ajuste fiscal requer corte de despesas e/ou aumento de receita. Cortar despesas públicas pode afetar beneficiários que votam - e não vão gostar da ideia. Desatrelar as aposentadorias do salário mínimo, por exemplo, faz total sentido econômico, mas seria suicídio político aventar essa ideia na campanha.

O mesmo ocorre com subsídios a setores importantes da economia - que patrocinam bancadas inteiras no Congresso. Elevar impostos, da mesma forma, nunca foi algo popular, mesmo quando o alvo é o “andar de cima”. O desatino fiscal que nos assola é obra coletiva. O papel protagonista cabe a um governo pautado pelo assistencialismo populista. Mas são coadjuvantes de peso os setores da sociedade que se organizaram para capturar subsídios, sinecuras e privilégios.

O Orçamento federal de 2026 prevê a concessão de R$ 612,8 bilhões em benefícios tributários, algo como 4,5% do PIB. Ninguém vai ganhar votos prometendo corte de vantagens e regalias. Não, não há encontro marcado com o ajuste fiscal. Outros temas ocupam a pauta dos eleitores e dos grupos de pressão. Vamos levando. Não há liderança política no horizonte capaz de trazer esse assunto ao centro do palco. Ninguém sabe ao certo o limite máximo da dívida pública. Medidas paliativas podem ser tomadas, mas tudo sugere que vamos pagar para ver.


© Estadão