menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

Opinião | De Picasso a Trump: a alucinante regressão

19 0
15.02.2026

No início do século 20, os EUA ainda inseguros de seu lugar no mundo, decidiram virar as costas à arte moderna europeia. Consideravam-na decadente, intelectual demais, excessivamente marcada por um continente velho e exaurido. Enquanto Paris era o centro de gravidade cultural, artistas e instituições americanas viam no cubismo, expressionismo e surrealismo não caminhos para a criação e o conhecimento, mas uma ameaça ao “espírito americano”, então moldado por moralismo, puritanismo, religião e pragmatismo.

Esses impulsos se cristalizaram na Ashcan School de Nova York, que defendia uma estética crua, urbana e nitidamente nacional – uma afirmação explícita de identidade contra Cézanne e Kandinsky, respectivos pais da arte moderna e da abstração. Pouco depois, o país cunhou sua própria “arte hodierna”, narrativa e viril, cuidadosamente formada para se diferenciar da experimentação cosmopolita europeia.

Museus, colecionadores e críticos empenharam-se em promover essa genealogia alternativa: uma modernidade sem Paris. Rejeitava-se Picasso para afirmar a pátria... America First.

Ao mesmo tempo, o Brasil fazia o contrário. Em Paris, Tarsila frequentava Léger, Brancusi, Cocteau e Picasso. Foi ali, na efervescência da década de 1920, que ela definiu seu estilo.

Para os brasileiros, a Europa era a porta de entrada para o mundo moderno, a libertação; para os EUA, a ameaça. Se este país construiu uma “arte moderna nativa” para se livrar das vanguardas europeias, o nosso tentou elaborar uma modernidade própria dialogando com elas – antropofagicamente.

Cem anos depois, eis que um movimento semelhante ressurge, agora em escala política e institucional. A nova Estratégia de Segurança Nacional apresentada por Donald Trump, em dezembro – muito bem analisada por este jornal no editorial Doutrina Trump e a nova desordem global (9/12/2025, A3) –, provocou choque e espanto, não só na Europa. Pela primeira vez, um documento desse tipo assume um tom abertamente moralizante, identitário e regressivo que glorifica um conservadorismo nacionalista assentado na “saúde cultural e espiritual” da nação e nas “famílias tradicionais e saudáveis” – marca evidente do vice-presidente J. D. Vance. Trata-se, ademais, de um verdadeiro projeto cultural de Estado, que lembra o Pacto de Varsóvia ao impor à União Europeia (UE) uma espécie de “soberania limitada”.

Deslegitimam-se o pluralismo, o cosmopolitismo, a abertura das democracias liberais. É como se a velha guerra estética contra as vanguardas europeias do século 20 tivesse sido atualizada para outra, civilizacional, contra o rico, complexo e diversificado projeto europeu de futuro.Mais uma vez, a Europa surge como contraponto. Implícita no documento está a velha suspeita: o continente seria um espaço burocrático e decadente, de relativismo excessivo e direitos em demasia. Ontem, o inimigo simbólico era o modernismo parisiense; hoje, o inimigo real é o modelo europeu de democracia regulada e supranacional. O país que rejeitou Picasso por considerá-lo incompreensível rejeita, hoje, a UE inteira – não por discordar de sua arte, mas por temer seus valores.

No final de dezembro, Washington proibiu visto para importantes personalidades que lutam contra a desinformação e o ódio na internet e, há menos de um mês, a escalada americana ganhou um grau inédito de gravidade, culminando em Davos. Em represália à crise da Groenlândia – a mais séria já enfrentada pela Otan desde sua criação, em 1949 –, suas ameaças e humilhações provocaram uma reação sem precedentes em Bruxelas, onde os 27 países da União Europeia, apesar da reviravolta de Trump, continuam a prever e articular mecanismos de defesa política e econômica contra os EUA. Há poucos dias, foi divulgada a lista absurda dos 11 dados pessoais que cada europeu deve fornecer para entrar nos EUA.

Esses gestos antieuropeus, carregados de ressentimento e autossuficiência, continuam o mesmo bras d’honneur cultural, ampliado por uma retórica populista ancorada na lógica do medo. E, no entanto, no Brasil do século 21, instituições culturais – mesmo as mais importantes, como a Bienal de São Paulo – preferem papaguear discursos identitários estéreis em vez de defender os valores hoje sob ataque direto das potências totalitárias. Num momento em que Rússia, China e seus satélites tentam reconfigurar a cultura e a informação, reafirmar o legado europeu seria, isso sim, um verdadeiro ato de resistência. Não uma “submissão cultural neocolonialista”, mas um gesto de consciência – e uma recusa clara a qualquer forma de autoritarismo, venha ele de Trump, do Kremlin ou dos radicalismos domésticos.

Este paralelo histórico, ainda que imperfeito, ilumina algo essencial: quando uma potência abraça uma suposta “pureza moral”, a cultura é confinada, tornando-se instrumento de legitimação nas relações de força. A rejeição simbólica transforma-se em método: da intimidação à chantagem, das alianças fragilizadas às ambições territoriais. Se no século 20, a América tentou se proteger do modernismo, no 21 busca se proteger da modernidade.

Rejeitar o outro e lhe dar lições de virtude continua sendo mais fácil do que enfrentar as próprias contradições – no caso dos EUA, sua alucinante regressão cultural, política e civilizacional. Ontem, Picasso servia de bode expiatório. Hoje, é a Europa inteira.


© Estadão