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“Uma nuvem luminosa os cobriu...”

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23.02.2026

No texto da transfiguração de Jesus, a ser proclamado no próximo domingo (II da Quaresma/Ano A), o evangelista Mateus afirma que “uma nuvem luminosa os cobriu com a sua sombra” (Mt 17, 5). Quando tentamos conjugar a sombra da nuvem com a sua luminosidade, de imediato percebemos que o evangelista pretende orientar-nos para um outro nível de leitura e significado, para a dimensão teológica do texto. Como frequentemente acontece, o texto não está a descrever um acontecimento, mas a evocar um sentido e a sugerir uma interpretação.

Mais clara ou mais espessa, luminosa ou não, a nuvem simboliza, em todas as culturas, o mistério da união entre o divino e o humano, uma espécie de elo entre o céu e a terra. Na Sagrada Escritura, é um símbolo rico e “privilegiado para significar o mistério da presença divina: manifesta Deus ao mesmo tempo que o esconde”1. Presta-se assim a conjugar a proximidade e familiaridade de Deus com a sua distância e transcendência. Simultaneamente acessível e impenetrável, a nuvem permite alcançar Deus sem o ver face a face, assumindo-se como um símbolo profundamente religioso e teológico, um dos elementos constitutivos das muitas e variadas teofanias do Antigo Testamento. 

No livro do Êxodo, Deus guia o povo de Israel pelo deserto, durante o dia, por meio de uma coluna de nuvem (cfr. Ex 13, 21; 14, 19-20). Assim se sugere que Ele caminha com o seu povo, o protege dos inimigos e o orienta pelo caminho a percorrer. Na travessia do êxodo, Deus assume-se como guia e escudo do seu povo. Quando entrega a Lei a Moisés, no Monte Sinai, fala a partir da nuvem que cobre a montanha (cfr. Ex 19, 9.16; Dt 5, 22). Uma vez mais, a nuvem manifesta que Deus está presente de modo real, mas misterioso; indica que Ele está ali, mas permanece não plenamente visível, porque transcendente.

A nuvem aponta sempre para a glória e a santidade de Deus, que, ao mesmo tempo, se revela e oculta e cuja presença é tão intensa que não pode ser vista diretamente. Se a nuvem protege a glória de Deus, também a manifesta: “a glória do Senhor apareceu na nuvem” (Ex 16, 10). É esta nuvem que, na parte final do livro do Êxodo, enche a Tenda do Encontro e o Templo, assinalando que Deus toma posse daquele lugar (cfr. Ex 40, 34-35). Algo de semelhante acontece em Nm 17, 7 (“ao reunir-se a assembleia contra Moisés e contra Aarão, eles se voltaram para a tenda da reunião e eis que a nuvem a cobriu aparecendo a glória do Senhor”) e em 1 Rs 8, 10-11 (“Quando os sacerdotes saíram do santuário, a nuvem encheu o templo do Senhor. Deste modo, os sacerdotes não puderam ficar ali para exercerem o seu ministério, por causa da nuvem, já que a glória do Senhor enchia o templo do Senhor”). A nuvem protege o homem da manifestação direta da glória divina e o profeta Ezequiel vai mais longe quando sugere que esta nuvem protege a glória do Senhor que se apressa a abandonar o templo de Jerusalém (cfr. Ez 10).

Por vezes, a nuvem também se assume, na Sagrada Escritura, como sinal do Dia do Senhor e do seu juízo, como se depreende de Dn 7, 13-14: “Contemplando sempre a visão noturna, vi aproximar-se sobre as nuvens do céu, um ser semelhante a um filho de homem. Avançou até ao Ancião, diante do qual o conduziram. Foram-lhe dadas as soberanias, a glória e a realeza. Todos os povos, todas as nações e as gentes de todas as línguas o serviram. O seu império é um império eterno que não passará jamais e o seu reino nunca será destruído” (Dn 7, 13-14; cfr. Jl 2, 2). Esta ideia é retomada, no Novo Testamento, por Mt 24, 30 (“verão o Filho do Homem vir sobre as nuvens do céu, com grande poder e glória”) e 26, 64 (“Vereis um dia o Filho do Homem sentado à direita do Todo-Poderoso e vindo sobre as nuvens do céu”). A nuvem assume, nestes casos, a simbologia da majestade, do poder e do juízo divinos. 

Na Transfiguração de Jesus, a nuvem está ao serviço da confirmação da identidade de Jesus Cristo, pois dela sai uma voz que diz: “Este é o meu Filho muito amado, no qual pus todo o meu agrado. Escutai-o” (Mt 17, 5). Símbolo da glória divina, a nuvem aparece também associada à manifestação da realeza messiânica. Da nuvem surge a revelação e a confirmação da identidade divina de Jesus, bem como a sua participação na glória do Pai. Por isso o livro do Apocalipse fala de Jesus Cristo que “vem no meio das nuvens” (1, 7) e se apresenta sentado sobre “uma nuvem branca” (14, 14), como Senhor da natureza e da história. 

Em síntese, a nuvem simboliza, na Sagrada Escritura, a presença real e protetora de Deus, assim como o seu caráter misterioso e transcendente. Além disso, é instrumento da revelação divina, do mistério da glória de Cristo e da sua última manifestação. Na sua dimensão simbólica, a nuvem presta-se a ser um símbolo adequado para manifestar a transcendência de Deus e dizer a sua indizibilidade. O Deus que se revela e aproxima permanece maior do que toda a compreensão humana e, por isso, faz-se simultaneamente próximo e distante: próximo, para ter algo a ver com o seu humano; e distante, para não ser com ele confundido. 

1 X. León-Dufour, Vocabulario de Teología Bíblica (Barcelona: Herder, 2009), 593.


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