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“Trânsfuga” d’ocasião

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16.02.2026

Nos meus tempos de estudante do 1º Curso Noturno no Liceu Sá de Miranda, da nossa Cidade dos Arcebispos, em 1973, (após ter cumprido o ‘serviço militar obrigatório’), éramos quase todos adultos. Recordo-me de ter visto nos primeiros dias que se seguiram ao 25ABR74 alguns alunos a envolverem-se na dialética política, sem nunca lhes ter conhecido qualquer tendência para tal. Em tempo letivo, sucediam-se os plenários e a contestação por força da liberdade de opinião conquistada. Começando a aparecer os filiados em Partidos políticos, uns mais politizados e outros nem por isso. Mas cada qual puxando a brasa à sua sardinha, isto é, cor política. 

De entre essa gente havia um colega alegre e tagarela, o Ribeiro da Silva, casado, com filhos e que se filiara no Partido Socialista (PS), sendo não só um arreigado defensor de tal ideologia, como pregador das suas virtudes. Até que, numa das aulas, apareceu na turma de emblema do Partido Social Democrata (PSD) espetado na lapela do casaco, o que nos deixou a todos abismados. Contudo, um dos mais ousados resolveu instá-lo: – “ó Ribeiro da Silva, então ainda ontem eras do PS a agora és do PSD?”. Ao que ele, com toda a lata que tinha, lhe respondeu: – “é que sabes, tenho a prestação da casa e o colégio dos filhos para pagar, quero ver se troco de carro e o dr. Fulano, do PSD, ofereceu-me mais vantagem pecuniária”. 

Pois bem, estava dado o mote para que outras figuras lhe seguissem as pisadas. Como, posteriormente, se viria a assistir com as Zita, os Freitas, as Roseta e os Basílio desta vida, a trocarem de camisola partidária, pois, como lá diz a frase imortalizada pelo dr. Mário Soares: – “só os burros não mudam”. Aliás, foi aquilo a que se assistiu nas últimas eleições Presidenciais, à “trânsfuga” d’ocasião dos notáveis dos partidos do chamado centro-direita, inclusive da Iniciativa Liberal, a declararem o seu voto no candidato do PS e da ‘geringonça’. Optando por alinhar no discurso da esquerda do ‘revés para a democracia’, da ‘vinda do fascismo’ e da ‘perda de direitos sociais’ se o pessoal não os seguisse. Isto, quando tinham três hipóteses, caso não quisessem optar por nenhum dos candidatos: votar nulo, em branco ou abster-se.

Pergunto: com a retumbante vitória conseguida com uma frente eleitoral mista, não será plausível que a direita venha, agora, a ser liderada pelo Chega, o único que não se desviou da sua posição de sempre? Mas mais, o PSD e o CDS não se terão arriscado a que o povo deixe de acreditar na patranha – que ambos lhe andaram a enfiar – de que o socialismo não presta. A meu ver, não irão faltar oportunidades para o dr. André Ventura e os seus 60 deputados os molestarem, sempre que voltem a dizer cobras e lagartos do PS e da extrema-esquerda no Parlamento. Ficando, desde já, claro como água de que as divergências não têm passado de uma farsa e que o Governo da AD e PS, são as faces da moeda dos interesses partidários e pessoais.

Sabia-se da falta de consenso nas hostes socialistas em apoiar aquele que, afinal, viria a ser o seu candidato presidencial. Tendo-se registado, no início da campanha, uma certa hesitação não só em o líder do PS, como os seus camaradas lhe dispensarem apoio. Decisão essa que, na falta de melhor, teve o seu epílogo quando viram as medíocres prestações dos outros aspirantes e a frágil posição destes nas sondagens. Ficando por saber se, acaso o dr. Marques Mendes tivesse ido à 2ª volta com o dr. Ventura, a esquerda votaria no social-democrata. 

Do total de eleitores inscritos, foram 50% os que elegeram Presidente da República Portuguesa – por margem nunca vista – o dr. António José Seguro. Candidato do PS que jamais renunciou à esquerda e, que se saiba, nunca votou à direita. Pelo menos, a meu ver, é um político que procura ser mais contido e menos espalhafatoso do que o seu antecessor, o professor Marcelo Rebelo de Sousa. Porém, em nada comparável à incontornável preparação e sentido de estado de um rei. 


© Diário do Minho