O povo é que paga
1 - É notícia recentíssima. A CGD (Caixa Geral de Depósitos) fechou o ano de 2025 com lucros de 1904 milhões de euros, enquanto no mesmo período o conjunto dos maiores bancos que operam em Portugal (CGD, Santander Totta, BPI e Banco Comercial Português) somou um lucro de cerca de 4,4 mil milhões de euros.
Depois dos anos de chumbo que se seguiram à crise financeira internacional de 2008 e se prolongaram até à ressaca da queda do BES (Banco Espírito Santo), durante os quais o Estado português – ou seja, o contribuinte – teve de amparar as maleitas da banca nacional, nos últimos anos este setor passou a exibir saúde, lucros recorrentes. Muito melhor assim, mas não absolutamente, todavia.
Conservador por natureza, sustenta-se comummente, e com pouca literacia financeira, o aforrador típico português coloca as suas poupanças em “depósitos a prazo” nos bancos. E a banca nacional agradece.
Analisando os juros passivos (sobre depósitos a prazo) pagos pela generalidade da banca em Portugal no final de 2025, constata-se que apresentavam um diferencial negativo de cerca de 0,5 pontos face à média da remuneração oferecida para este mesmo produto no conjunto dos bancos da zona euro. Em Portugal, a remuneração média paga pela banca sobre os depósitos a prazo em dezembro de 2025 era de 1,36 %, enquanto na zona euro essa remuneração era de 1,85 %.
Os contribuintes e todos os consumidores (também contribuintes, através do IVA e de outros impostos) em Portugal poderão sentir-se agora mais satisfeitos porque já não têm de alocar verbas do Orçamento do Estado para amparar a banca, como deve suceder num quadro de funcionamento normal da economia, mas não podem exorbitar de contentamento. Afinal, a banca já não pede ajuda ao Estado, mas espreme o aforrador tradicional, por regra com poupanças modestas, nos seus depósitos a prazo. Esta realidade reflete, objetivamente, a escassa concorrência na oferta de serviços bancários em Portugal. Pode bem dizer-se, como corolário do observado nos últimos anos, que os portugueses, de uma forma ou de outra, continuam a subsidiar generosamente a banca nacional. Assim, quase fazendo jus à velha frase popular que sustenta que, nas crises graves como nos prejuízos, “o povo é que paga”.
2- Fica cada vez mais patente que o fim do multilateralismo, a rédea solta exibida pelas grandes potências militares internacionais, está a tornar o nosso mundo mais inseguro. Insinua-se como muito provável que os EUA venham, de algum modo, a ter de usar a força para bloquear as aspirações nucleares do Irão. As negociações entre estes dois países ainda prosseguem quando escrevo esta crónica, mas o expressivo dispositivo militar americano deslocado para um “cerco” ao Irão parece indiciar que o confronto se materializará.
Dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, um órgão vocacionado para caucionar ou impor a paz no mundo, três deles (Rússia, EUA e China), ainda que num quadro diverso, ostentam um crescente desdém pela velha ordem geopolítica. A Rússia mantém uma guerra de agressão contra a Ucrânia há quatro longos e tenebrosos anos (muitos milhares de mortos ucranianos, mas também russos). Os EUA manifestam um crescente desdém pela NATO, mantêm latente a vontade de anexar território de um Estado aliado (a Gronelândia, sob tutela da Dinamarca) e, entretanto, colonizaram temporariamente(?) a Venezuela. A China, por seu lado, no seu vagaroso e persistente modo oriental, não dá descanso a Taiwan, cuja anexação futura dá por inevitável.
Perante um quadro darwiniano na cena política internacional, em que prevalece a lei do mais forte, a generalidade dos países tenderá a armar-se mais, e a tentação de vários para acederem à bomba nuclear, alegadamente como escudo protetor, crescerá.
Lamentavelmente, o nosso mundo está mais perigoso e parece que persistirá nessa senda nos anos próximos. E a história diz-nos também: nas guerras, é sobretudo o povo que paga, é quem mais sofre.
