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O dilema do PS: entre a memória e a irrelevância:

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30.03.2026

O dilema do PS: entre a memória e a irrelevância:

A recente e estrondosa derrota do Partido Socialista nas eleições legislativas não pode ser lida como um episódio conjuntural, nem resolvida com expedientes internos de curto prazo. Não basta convocar eleições internas, legitimar lideranças com maiorias esmagadoras ou promover encontros fechados onde o partido fala sobretudo para si próprio. O problema é mais profundo e mais incómodo.

Durante décadas, o PS foi uma força estruturante da democracia portuguesa. Esteve no centro da consolidação do regime nascido da Revolução de 25 de Abril de 1974, participou na construção do Estado Social, foi protagonista na criação do Serviço Nacional de Saúde, na defesa da Constituição e na expansão de direitos fundamentais. Em vários momentos da nossa história recente, governou com ambição reformista e contribuiu para melhorar as condições de vida dos portugueses, em particular das classes trabalhadoras.

Mas a política não vive de memória, não substitui o presente nem garante o futuro. Meio século após Abril, o país mudou profundamente. A sociedade tornou-se mais exigente, mais informada, mais fragmentada. Os desafios são outros: demográficos, tecnológicos, económicos e geopolíticos. No entanto, o PS parece muitas vezes preso a um tempo que já não existe.

Essa desconexão é particularmente evidente na relação com as novas gerações. O partido perdeu capacidade de escuta e de interpretação do mundo dos jovens. Não fala a sua linguagem, não responde às suas inquietações e, em demasiados casos, ignora-os. Num país marcado pela emigração jovem, pela precariedade laboral e pela dificuldade de acesso à habitação, este afastamento é politicamente fatal.

A crise é também interna. Persistem práticas que fragilizam a credibilidade do partido: redes de influência cristalizadas, mecanismos informais de controlo, lógicas de fidelização que pouco têm a ver com participação democrática. A ideia de mérito cede frequentemente perante a lógica do alinhamento. O interesse coletivo é substituído pelo cálculo individual. E o serviço público dá lugar ao carreirismo político.

Ora, num contexto destes, seria de esperar que o PS se afirmasse como uma alternativa robusta e credível. Nunca houve, em teoria, terreno mais fértil para isso.

O Serviço Nacional de Saúde enfrenta dificuldades estruturais profundas. A justiça permanece lenta e distante dos cidadãos. O sistema educativo revela sinais de desorientação estratégica, enquanto o ensino superior levanta interrogações sobre o seu modelo e missão. A segurança é percecionada como um problema crescente. As forças armadas enfrentam constrangimentos sérios ao nível dos recursos humanos e da modernização. E a confiança nas instituições políticas continua fragilizada por sucessivos episódios que minam a sua credibilidade.

A tudo isto soma-se um cenário internacional incerto, marcado por tensões geopolíticas, instabilidade económica e transformações aceleradas.

E, ainda assim, o PS parece perdido. Em vez de apresentar um projeto alternativo claro, consistente e mobilizador, refugia-se demasiadas vezes no contraditório parlamentar, na reação tática, na crítica circunstancial. Falta-lhe densidade programática, visão estratégica e, sobretudo, capacidade de se diferenciar de forma inequívoca.

Entretanto, o espaço político mudou. O PS já não é, nem pode assumir que é, a única alternativa de governação. À direita e à esquerda surgem propostas concorrentes e diferenciadoras, independentemente da viabilidade de concretização. E, de forma particularmente preocupante, cresce uma extrema-direita que capitaliza o descontentamento, explorando temas como a corrupção, a insegurança e o distanciamento das elites políticas.

Ignorar este fenómeno ou reduzi-lo a um desvio passageiro é um erro estratégico grave. Combatê-lo exige mais do que indignação moral, exige respostas políticas eficazes, credíveis e ancoradas na realidade.

O tempo em que bastava esperar pelo desgaste do governo para regressar ao poder terminou. Os eleitores tornaram-se menos previsíveis, mais exigentes e menos tolerantes à inércia. A alternância deixou de ser adquirida e automática.

Hoje, quem quer governar tem de provar que merece governar, isto implica renovar políticas, renovar lideranças, renovar práticas. Implica abrir o partido à sociedade, valorizar o mérito, promover a transparência e recuperar a confiança. Implica, acima de tudo, voltar a pensar o país com ambição, com rigor e com coragem.

Nada disto obriga o PS a renegar a sua identidade. Pelo contrário, exige sim, que a reinterprete à luz do presente. A social-democracia continua a ser um referencial válido, assente na igualdade de oportunidades, na coesão social e na solidariedade. Mas precisa de ser atualizada, concretizada e tornada relevante para os desafios do século XXI.

Portugal continua a precisar de um grande PS reformista, progressista e democrático. Um partido capaz de combinar justiça social com crescimento económico, abertura ao mundo com coesão interna, liberdade individual com responsabilidade coletiva.

Se o PS quiser continuar a ser esse partido, terá de fazer mais do que recordar o que foi. Terá de decidir o que quer ser. E, sobretudo, terá de acordar.

Baptista Jerónimo, 30/03/26


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