Quando Ceuta é culpa de Israel
Em Maio de 2021, quando Marrocos abriu a fronteira de Ceuta e empurrou milhares de pessoas para dentro do exclave espanhol, houve quem soubesse de imediato de quem era a culpa. Não de Rabat, que usava corpos humanos como alavanca sobre Madrid, no velho tabuleiro do Sara Ocidental. Não de uma União Europeia incapaz de responder à chantagem migratória que já sofrera antes e voltaria a sofrer. A culpa era de Israel.
A ponte era engenhosa: os Acordos de Abraão tinham aproximado Marrocos de Israel, logo a mão que abria a fronteira era, no fundo, a mão de Jerusalém. O caso é absurdo, e é a sua própria absurdidade que o torna clinicamente útil. Israel não teve mão nenhuma em Ceuta. E, no entanto, de todos os actores com agência real naquela fronteira (Marrocos, Espanha, Bruxelas), o único a quem se atribuiu uma causalidade oculta foi o Estado judaico.
Vale a pena reparar em quem o disse. Não foi o anti-semita rústico, que não sabe. Foi gente instruída, gente que se julga inteligente, e que construiu com fervor a ponte conspirativa que ligava um exclave espanhol a Telavive. A inteligência, aqui, não protegeu do erro. Sofisticou-o.
E convém desmontar a ponte peça a peça, porque ela parece sólida e não é. Que existam alinhamentos entre Israel, Marrocos e os Estados Unidos é verdade, os Acordos de Abraão aproximaram-nos e Washington reconheceu a soberania marroquina sobre o Sara. Mas um alinhamento não é uma ordem. Da existência de uma teia de interesses não se salta, sem prova nenhuma, para a autoria de um acto concreto. E se algum membro do governo israelita aplaudiu depois o sucedido, isso não prova coisa alguma, é a declaração oportunista de sempre, do género das que se fazem todos os dias no jogo político de qualquer país,........
