“Chega hoje sua Excelência, o...”
O dia 22 de março, segundo algumas tradições portuguesas, com grande predominância no Minho, é precisamente o dia da chegada do cuco. Por coincidir com o início da Primavera, era costume, em algumas freguesias do distrito de Braga, esperar-se pela primeira vez que o cuco cantasse. Trata-se de uma tradição que tem perdido força nos últimos tempos; contudo, ainda subsiste em várias localidades, nomeadamente em algumas freguesias de Barcelos, Braga e Vila Nova de Famalicão. João Rosa, na obra Cavalgada (1899), faz referência a estas celebrações ao mencionar que o “Padre António era certo na clássica procissão do cuco em Villa Nova de Famelicão, bem como Pedreira, padre Amaro, e padre José Bento, da Vinha; typos de engraçadas chalaças”, acrescentando ainda que as “cavalgadas” que caracterizavam estas festas em honra dos cucos envolviam outros participantes, entre os quais o “reverendo das Carvalhas”. Refere ainda João Rosa que o padre António, da “casa do Fullão, de Sequiade, varão de virtude, muito alegre, éra um orador respeitado e bem acceito no seu tempo, e poeta festejado. Era competidor do padre Pedreira, de Minhotaes”! Também José da Silva Vieira, em Apontamentos (1888) refere que em algumas freguesias de Barcelos, reina a crença de que o cuco chega no dia de S. Bento da Várzea, a 22 de março. Nesta freguesia de S. Bento da Várzea “onde é venerado este santo é costume fazer-se, em duas romarias, uma feira anual de gado bovino, em cada uma d'ellas; porem quando um qualquer lavrador leva a essa feira uma junta de bois que sejam brancos ou russos, o povo diz logo: «aquelle vae buscar o Cuco»”! Nestas freguesias referia-se que o cuco aparecia a 22 de março e ia embora no dia de S. Bento a 11 de julho. Refere o autor que “Isto é crença geral em quasi toda a gente dos arredores de Barcellos”. Também na freguesia de Balugães era hábito esperar-se pela chegada do cuco neste dia 22 de março. Segundo Dídimo Vítor Hugo (“Jornal de Barcelos”, de 10 de abril de 1958) os rapazes da freguesia ficavam entusiasmados, cumprindo rigorosamente uma tradição que era só deles. Assim, umas semanas antes desse domingo, “todos os rapazes vigorosos de Balugães e freguesias limítrofes procuravam por todo o Vale do Neiva quem lhes emprestasse toda a espécie de gado cavalar que por aí havia. Servia também qualquer charrete, «vitória» ou outro trem”. Então, desde o início do século XX que esses meios de transporte eram engalanados da melhor forma possível. O dia 22 de março era aguardado com grande expectativa e entusiasmo popular. Ainda o sol não tinha nascido e já os caminhos daquele vale se enchiam de movimento em direção a Tamel. Aí, a multidão esperava a chegada do cuco, que vinha no “comboiocorreio”. Seguiamse então as devidas honras, sempre de forma apoteótica. Os organizadores desta festa “dispunham os carros e as inquietas cavalgaduras em fila indiana, como melhor entendiam, prontos a seguir a marcha pela estrada fora”. Quem representava o cuco era um homem sempre vestido de branco, que entrava no comboio no apeadeiro de Carapeços e saía na estação ferroviária de Tamel. Nesse dia, logo que o comboio atravessava o túnel ferroviário existente no local, eram lançadas girândolas de foguetes, cujo eco se fazia ouvir ao longe. De seguida, vindo numa carruagem de primeira classe, desembarcava o imponente homem vestido de branco, simbolizando a chegada do cuco. A forma como se apresentava, com “roupas alvas e finas, chapéu de palhinha com penas e fitas, laço, luvas brancas e sapatos de verniz” conferialhe uma verdadeira aura de distinção. O senhor vestido de branco “cumprimentava todas as aves, algumas de rapina, que nessa gare apinhada o aguardavam para lhe manifestar as boasvindas”. Existia então um carro engalanado com flores e ramos de mimosa que, depois de posto em marcha, era seguido por grupos de zésPereiras, cabeçudos e um carro de “patos bravos”. Depois surgia o “carro das andorinhas”, puxado por dois cavalos brancos, seguindose o “carro dos melros de bico amarelo e pardais”. Por fim, vinha o carro que transportava “Sua Excelência, o Senhor Cuco”, acompanhado pela Banda de Música. O cortejo chegava pelo meio-dia, ao largo de S. Bento, que estava repleto de gente. No percurso, os habitantes das casas colocavam às janelas as melhores colchas que tinham. Então, perante entusiásticas palmas, eram lançadas várias dezenas de pombos! De referir que existia ainda um palco, nesse largo, onde se encontravam sentadas três personagens típicas da freguesia de Balugães. Uma delas levantava-se, com nariz avermelhado e fino, proferia um discurso com um dialeto muito próprio, no qual apresenta as debilidades da freguesia, perante a alegria popular, que assim dava por terminada esta festa dedicada ao “Senhor Cuco”! Ainda em relação ao cuco, cujo canto do macho é composto por uma sequência de duas notas, que soam como "cu-cu", ocupa um lugar importante na etnografia portuguesa, havendo superstições ligadas ao seu canto. Assim, é comum na nossa região dizerse que, para os homens casados, o cuco pressagia a infidelidade da esposa. O marido que ouvisse o cantar do cuco sentiase ferido na sua honra, pois julgava que estava a ser enganado pela mulher. Segundo Fernando de Castro Pires de Lima, “Cantares do Minho” (Barcelos, 1937), diversas povoações chegavam a atribuir a freguesias vizinhas este “afrontoso estado”. Por exemplo, “os de S. Simão de Novais, no Minho, quando se referem à freguesia de Arentim: “Se houver de tomar amores, Arentim nem por degredo, que lá há muita ramada, canta o cuco muito cedo...”. Também José Leite de Vasconcelos, em “Tradições Populares de Portugal” (Porto, 1882), refere que há povoações que julgavam o cuco um animal casamenteiro, surgindo desta forma alguns cantares, como por exemplo: “Cuco da gesteira, quantos anos me dás de solteira? Cuco de Janeiro, quantos anos me dás de solteiro? Cuquinho da beira-mar, quantos anos me dás p’ra casar? Cuco da Carraspuda, quantos anos me dás de viúva?” Por fim, há a referir que os artesãos barcelenses retratam bem este animal nas suas criações artísticas. Para A. Gomes Pereira, em “Tradições Populares de Barcelos” (Esposende, 1915), os cucos foram produzidos em barro, pelos ceramistas de Barcelos, e rapidamente se tornaram uma das referências desta região. Muitos levavam-no no bolso, para os campos, para aí provocarem os pássaros: “Eu já vi cantar o cuco na rabiça do arado: ele é cuco, recucudo, ele é cuco acabado”. No dia em que a Primavera desponta, vale a pena revisitar estas memórias coletivas que durante décadas animaram as nossas terras. São tradições que, apesar de terem perdido vigor, continuam a fazer parte da identidade cultural das freguesias aqui mencionadas. Recuperálas seria não apenas um gesto de preservação patrimonial, mas também uma forma de reforçar o sentimento de comunidade e de celebrar, com renovado entusiasmo, a chegada do cuco e o renascer do ciclo primaveril.
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