O silêncio de 33 milhões
Uma democracia pode realizar eleições impecavelmente regulares e, ainda assim, perder substância quando milhões deixam de encontrar sentido nas opções apresentadas. Com 99,13% das seções totalizadas, a abstenção no primeiro turno de 2026 chegava a 21,07%, cerca de 33,16 milhões de brasileiros. Somados aos 5,9 milhões que compareceram, mas votaram em branco ou anularam, eram quase 39 milhões sem voto válido em nenhum candidato.
A sequência preocupa. A abstenção foi de 19,39% em 2014, 20,33% em 2018, 20,95% em 2022 e chegou agora a 21,07%. Há doenças, viagens, distâncias e impedimentos pessoais nesse universo. Mas dezenas de milhões de ausências, eleição após eleição, impõem uma pergunta mais séria: quanto desse afastamento nasceu da frustração com aqueles que elegemos?
Durante décadas repetimos que o brasileiro precisa aprender a votar. A política também precisa aprender a merecer o voto. O eleitor é cortejado na campanha, cercado de promessas e procurado até a votação. Depois da posse, frequentemente descobre que prioridades, alianças e convicções mudaram. Quatro anos mais tarde, o representante reaparece pedindo renovação do mandato. Culpar apenas quem se afastou da urna é uma forma conveniente de absolver quem ajudou a afastá-lo.
A corrupção pesa brutalmente nessa descrença porque seu prejuízo ultrapassa o dinheiro roubado. Corrupção........
