Aparecida foi intimada aos tribunais, “depredraram” Camões e apequenaram o Supremo
O último dia de setembro de 2026 conseguiu pôr na mesma mesa Nossa Senhora Aparecida, Antonio Tabet, André Mendonça, Sérgio Moro, Winston Churchill e a democracia ateniense. Aristófanes (c. 448-c. 385 a.C.), mestre da Comédia Antiga e autor de Lisístrata, As Nuvens e As Rãs, teria agradecido o material. Fez da política, da guerra, dos tribunais e dos costumes matéria de sátira. Brasília demonstrou que o gênero atravessou vinte e quatro séculos sem perder clientela.
Tabet escreveu no X: “A família miliciana odeia tanto mulher preta, que resolveu atacar Nossa Senhora Aparecida!”. Ponto. Não citou Flávio Bolsonaro, Jair Bolsonaro, candidato, presidenciável, partido ou sobrenome. “Família miliciana” circula há anos no vocabulário da disputa política brasileira. Ainda assim, a campanha de Flávio levou a postagem ao TSE e André Mendonça determinou sua retirada. A identificação que Tabet não fizera passou a existir dentro do processo.
A pergunta nasceu pronta para o humor: se alguém lança uma carapuça sem nome na praça e outra pessoa corre para dizer que a peça lhe serve, quem identificou a cabeça? O autor ou quem a reivindicou? Flávio Dino derrubou a ordem de Mendonça e permitiu que a publicação voltasse ao ar; Fux suspendeu essa decisão; no dia 30, o próprio Mendonça reviu sua posição quanto a Tabet e defendeu a permanência do post.
Carapuça ou arapuca? Pasquale Cipro Neto, de A Nossa Língua de Todo Dia, na CBN, poderá resolver a gramática. Para certas construções semânticas de Brasília, será preciso abrir consulta complementar.
O episódio produz riso, mas toca assunto sério. Justiça eleitoral precisa enfrentar desinformação. Ao mesmo tempo, sátira, opinião, ambiguidade e afirmação factual pertencem a categorias diferentes. Misturá-las sob a mesma tesoura amplia o poder de quem decide quais palavras podem permanecer na praça pública.
É nessa praça que Sérgio Moro mantém antiga negociação com a língua de Camões. “Cônjuge” perdeu uma sílaba e virou “conje”; “vier” cedeu lugar a “vim”; “rusgas” envelheceram e apareceram como “rugas”; alguém deixou de agir “sob violenta emoção” para agir “sobre” ela, como se a emoção fosse colchão. O verbo haver, impessoal no sentido de existir, recebeu plural por liberalidade do juízo. Vieram “juíz”, acento concedido por decisão monocrática;........
