Lutar até o fim
A vitória eleitoral de Flávio Bolsonaro foi uma calamidade política de proporções catastróficas. O mercado financeiro recebeu-a com júbilo indisfarçável. No dia seguinte do primeiro turno, a Bolsa de Valores bateu seu recorde histórico. Já o povo de esquerda está triste e amargurado. Mas nada é mais decisivo agora do que o sentido de máxima urgência. Não é hora de fazer os balanços. Não temos tempo. Aprender com os erros, e eles não foram poucos, será indispensável.
Mas agora é hora de ação. O que é vital é lutar até o fim para reverter o resultado do primeiro turno. São muitos milhares que já compreenderam a ameaça da catástrofe iminente, e estão improvisando auto-organização através de grupos de Whatsapp. O impulso da ampla vanguarda de esquerda está certo. Plenárias presenciais e virtuais estão sendo convocadas em todo o país. O desafio é fazer uma campanha movimento, nas redes e nas ruas, a mais unificada possível.
Qual foi o significado do desfecho das eleições gerais? O que está em debate não é somente quem será presidente. O que está em disputa é muito mais grave do que alternância de governo. Flávio Bolsonaro ambiciona ir muito mais longe do que fez seu pai. O bolsonarismo é o fascismo do século XXI. Quer a subversão do regime: o poder total. A extrema direita quer usar as posições de força que conquistou para desfigurar o regime democrático.
Sua estratégia é uma ofensiva gradual e permanente, como Bukele fez em El Salvador, e está sendo feito no Peru e na Colômbia, de afirmação de um regime cada vez mais autoritário e fechado. Só falta a presidência para a extrema-direita ter controle de todas as instituições. Já têm maioria absoluta no Cãmara de Deputados (287 dos 513), no Senado (50 dos 81) e já declararam que vão tomar o STF (pelo impeachment dos desafetos e nomeação de quatro vagas até 2030).
Ninguém deve ignorar o peso dos fascistas nas Forças Armadas. Não menos importante, o bolsonarismo é um movimento político-social de choque que expressa a “massa” da burguesia, apoiado numa implantação real na pequena-burguesia e seus círculos de socialização, e elevou sua capacidade de organização, mesmo com a prisão dos golpistas. Está em mobilização ininterrupta nas redes sociais, mas, também, nas comunidades evangélicas e meios policiais, entre outras esferas. Devem ser levados a sério.
As eleições são uma forma de luta de classes. Ainda que com distorções – porque as condições são desiguais – são uma aferição da correlação política de forças. Mas há diferentes tipos de derrotas e de vitórias. Há vitórias eleitorais que explicitaram uma derrota política (como foi em 2014 o giro da linha Dilma Rousseff “nem que a vaca tussa” para a indicação de Joaquim Levy para a Fazenda) e o inverso, também, derrotas eleitorais que foram, paradoxalmente, vitórias políticas (como em 1989 contra Fernando Collor quando, apesar de Lula perder, o PT conquistou a posição de principal partido de oposição).
Análise de resultados eleitorais exigem uma calibragem. Em 4 de outubro tivemos uma derrota eleitoral e política severa. Ainda que não seja correto que sejam “duas eleições”, porque são dois momentos da mesma disputa, é........
