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170 anos de Sigmund Freud

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06.05.2026

Muitos hoje no mundo hoje lembram os 170 anos de Freud.

Do meu canto de não-especialista, ouso também falar sobre o ilustre cientista. E trago sem amargor os leitores para um aspecto de Freud, que muito me surpreendeu e me deu felicidade: o seu belo livro A interpretação dos sonhos. Para mim, é obra fundamental do cientista, que possui iluminações sobre a nossa vida em magnífica prosa. 

Muitos estudiosos falam que Freud bebeu profundamente nas obras literárias. Mas a minha opinião é que ele, além de se nutrir e beber da grande literatura, foi também um magnífico escritor. Apesar da divisão absurda entre ciência e arte, Sigmund Freud foi um cientista que sabia escrever as suas descobertas científicas sobre o mundo íntimo das pessoas. Se duvidam, notem as duas visões, de cientista e escritor, no que ele escreve sobre o Hamlet de Shakespeare, no grande livro “A interpretação dos Sonhos”:

“Outra das grandes criações da poesia trágica, o Hamlet de Shakespeare, tem suas raízes no mesmo solo que Édipo Rei. Mas o tratamento modificado do mesmo material revela toda a diferença na vida mental dessas duas épocas, bastante separadas, da civilização: o avanço secular do recalque na vida emocional da espécie humana. No Édipo, a fantasia infantil desejosa que subjaz ao texto é abertamente exposta e realizada, como ocorreria num sonho. Em Hamlet ela permanece recalcada; e — tal como no caso de uma neurose — só ficamos cientes de sua existência através de suas consequências inibidoras. Estranhamente, o efeito esmagador produzido por essa tragédia mais moderna revelou-se compatível com o fato de as pessoas permanecerem em completa ignorância quanto ao caráter do herói. A peça se alicerça nas hesitações de Hamlet em cumprir a tarefa de vingança que lhe é designada; mas seu texto não oferece nenhuma razão ou motivo para essas hesitações, e uma imensa variedade de tentativas de interpretá-las não trouxe nenhum resultado. Segundo a visão que se originou em Goethe e é ainda hoje predominante, Hamlet representa o tipo de homem cujo poder de ação direta é paralisado por um desenvolvimento excessivo do intelecto. (Ele está ‘amarelecido, com a palidez do pensamento’.) Segundo outra visão, o dramaturgo tentou retratar um caráter patologicamente indeciso, que poderia ser classificado de neurastênico. O enredo do drama nos mostra, contudo, que Hamlet está longe de ser representado como uma pessoa incapaz de tomar qualquer atitude. Nós o vemos fazer isso em duas ocasiões: primeiro, num súbito rompante de cólera, quando trespassa com a espada o curioso que escuta a conversa por trás da tapeçaria, e em segundo lugar, de maneira premeditada e até ardilosa, quando, com toda a insensibilidade de um príncipe da Renascença, envia os dois cortesãos à morte que fora planejada para ele mesmo. O que é, então, que o impede de cumprir a tarefa imposta pelo fantasma do pai?”

E agora a seguir, de modo magistral, em um trecho que narra a sua descoberta a partir de um sonho-modelo, sobre o qual escreve:

“Devemos tentar efetuar duas mudanças no paciente: um aumento da atenção que ele dispensa a suas próprias percepções psíquicas e a eliminação da crítica pela qual ele normalmente filtra os pensamentos que lhe ocorrem. Para que ele possa concentrar sua atenção na observação de si........

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