A dívida, a lama e o futuro penhorado
Há uma frase frequentemente atribuída ao célebre economista John Maynard Keynes que diz que as conclusões devem mudar quando os fatos mudam. Em Minas Gerais, talvez seja necessário fazer o caminho inverso: revisitar os fatos para verificar se as conclusões oficiais resistem aos números.
Ao longo dos últimos anos consolidou-se uma narrativa de que o governo Romeu Zema promoveu uma recuperação histórica das contas estaduais. A imagem da "casa arrumada" transformou-se em um dos principais “ativos” políticos da administração e, naturalmente, de seu sucessor político, Mateus Simões.
Mas os estados não são empresas. Empresas podem reduzir custos, maximizar lucros e encerrar atividades deficitárias. Estados precisam planejar territórios, reduzir desigualdades, gerir políticas públicas, coordenar investimentos, formar capital humano e construir oportunidades para gerações futuras. A diferença parece simples, mas é justamente ela que separa gestão administrativa de projeto político popular.
O grande problema de Minas Gerais nos últimos anos não foi a dívida. A redução do debate público a uma discussão quase exclusiva sobre a dívida empobreceu e enfraqueceu a capacidade pública de pensar, planejar. Falou-se muito de caixa e pouco de futuro. A obsessão com a conjuntura e com a aritmética empobrece.
Durante boa parte do período iniciado em 2019, Minas Gerais permaneceu amparada por decisões judiciais, por mérito da gestão Fernando Pimentel (PT) e mecanismos de renegociação que impediram a cobrança integral das parcelas devidas à União. O efeito foi imediato. Bilhões de reais deixaram de sair anualmente dos cofres estaduais.
Sob a ótica do fluxo financeiro, houve alívio. Sob a ótica da solvência, não. Porque dívida pública não desaparece quando deixa de ser paga. Ela continua existindo, continua acumulando juros e continua crescendo. Ao aderir ao recente Propag, o próprio Estado reconheceu um saldo devedor de aproximadamente R$ 179,3 bilhões junto à União, refinanciado por trinta anos.. Hoje esse saldo ultrapassa os R$ 200 bilhões. O programa reduziu encargos financeiros e permitiu reorganizar a trajetória dos pagamentos, mas também representou o reconhecimento de que o problema estrutural permanecia aberto.
Esse dado é importante porque desmonta uma parte relevante da narrativa do ajuste. Se a dívida continuou crescendo mesmo durante um período de suspensão dos pagamentos decorreu da melhora temporária do fluxo de caixa. Em termos simples, a principal conta deixou de ser paga por vários anos. Isso melhora não o abastecimento de água, mas mantém o vazamento em todas as torneiras.
A situação torna-se ainda mais interessante quando observamos o segundo fator que favoreceu as contas estaduais, que são as receitas extraordinárias. O acordo de reparação de Brumadinho movimentou R$ 37,7 bilhões. Parte significativa desses recursos foi destinada diretamente ao caixa Estado. Somaram-se a isso os efeitos fiscais da repactuação de Mariana e o ciclo favorável do minério e do agro, que ampliou arrecadação e receitas associadas ao setor mineral e ao agronegócio.
Minas, nesse período, teve o raro e paradoxal privilégio de reforçar seu caixa graças a uma combinação improvável: tragédias humanas transformadas em indenizações bilionárias, minério valorizado (gerador dos crime socioambientais) e decisões judiciais favoráveis. O estado viu........
