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O Brasil começou a entender a guerra do século XXI

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01.06.2026

A mudança passou quase despercebida. Em meio às tensões entre Brasil e Estados Unidos e às disputas que atravessam o Atlântico Sul, o Estado brasileiro deu um sinal discreto, porém significativo, de adaptação estratégica. Mais do que uma decisão operacional, trata-se do reconhecimento de uma transformação histórica: o poder contemporâneo já não depende apenas do controle do território, mas da capacidade de proteger os fluxos que sustentam economias, sociedades e Estados. E o Brasil, ainda que tardiamente, parece começar a compreender a natureza da guerra que definirá o século XXI.

Onde a soberania será decidida

Há momentos em que um país muda de direção sem fazer alarde. Não há pronunciamentos históricos, anúncios grandiosos ou manchetes ocupando capas de jornais. A mudança acontece silenciosamente, quase despercebida, escondida dentro de decisões que, à primeira vista, parecem apenas técnicas. Foi exatamente isso que ocorreu nas últimas semanas no Brasil.

Enquanto o debate público permanecia concentrado nas tensões entre Brasília e Washington, nas disputas em torno da Margem Equatorial e nas sucessivas crises que atravessam o sistema internacional, uma transformação discreta na doutrina de defesa brasileira sinalizou algo muito maior do que uma simples reorganização operacional. Ela indicou que setores do Estado começam a perceber uma realidade que já reorganiza o equilíbrio de poder no planeta.

Durante séculos, a soberania foi associada ao controle do território. Fronteiras, exércitos e ocupação física pareciam definir a força das nações. Mas o século XXI impôs outra lógica. As grandes disputas contemporâneas já não acontecem apenas sobre a terra. Elas acontecem sobre aquilo que circula por ela.

É por isso que a mudança observada recentemente merece atenção. Não porque represente uma solução pronta. Não representa. Tampouco porque inaugure uma nova capacidade estratégica. Ainda estamos longe disso. Sua importância está em outro lugar. Ela sugere que o Brasil começa a formular as perguntas corretas sobre um mundo que mudou mais rápido do que a maioria dos governos foi capaz de perceber.

Talvez seja cedo para afirmar que o país compreendeu integralmente a natureza da guerra que definirá as próximas décadas. Mas há sinais de que algo começou a se mover. E tudo indica que esse movimento parte de uma constatação simples: no século XXI, proteger o território continua sendo fundamental. Mas proteger os fluxos que mantêm esse território funcionando tornou-se igualmente decisivo.

A maior parte das pessoas continua imaginando a guerra da mesma forma que ela aparecia nos livros de história. Exércitos atravessando fronteiras, frotas bloqueando portos, cidades sendo ocupadas e territórios mudando de mãos. Nada disso desapareceu. Mas deixou de ser suficiente para explicar como o poder é exercido no mundo contemporâneo.

As grandes potências descobriram que existem formas muito mais eficientes de produzir efeitos estratégicos do que a ocupação territorial. Em vez de conquistar um país, tornou-se possível limitar sua capacidade de agir. Em vez de controlar diretamente uma região, tornou-se possível controlar as condições que permitem seu funcionamento. O alvo já não é apenas o espaço físico. São os mecanismos que mantêm economias, governos e sociedades em movimento.

É por isso que alguns dos principais pontos de tensão do planeta estão localizados sobre rotas e corredores de circulação. O que está em disputa no Estreito de Ormuz não é apenas uma faixa de mar. O........

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