Expectativas de inflação se deterioram e elevam incerteza sobre trajetória dos juros
O relatório Focus divulgado na manhã desta segunda-feira, 20 de abril, trouxe nova piora nas expectativas de inflação, reforçando um cenário que já vinha sendo antecipado nas últimas semanas. A projeção para o IPCA de 2026 subiu para 4,80%, enquanto a expectativa para 2027 avançou para 3,99%, aproximando-se perigosamente do limite superior da meta. Na prática, o mercado já considera comprometido o cumprimento da meta inflacionária nos dois horizontes relevantes.
A deterioração das expectativas ocorre em meio ao choque recente nos preços do petróleo, que voltou a ganhar força após a escalada de tensões no Oriente Médio. Os episódios envolvendo o Estreito de Ormuz, com ações militares que aumentam o risco geopolítico, tendem a prolongar um ambiente de preços elevados da commodity. O barril, atualmente em torno de US$ 95, permanece distante de níveis mais confortáveis e sustenta pressões inflacionárias adicionais.
No Brasil, o impacto desse choque ainda não se disseminou plenamente. Mesmo assim, os dados recentes já indicam aceleração: o IPCA acumulado em três meses alcançou cerca de 2%, sinalizando um ritmo incompatível com a convergência para a meta. A forma como a política de preços da Petrobras irá reagir — especialmente em relação ao diesel e à gasolina — será determinante para a magnitude desse repasse.
Diante desse quadro, cresce a incerteza sobre os próximos passos da política monetária. A expectativa predominante ainda aponta para um possível corte residual de 0,25 ponto percentual na próxima reunião do Copom, levando a Selic de 14,75% para 14,50%. No entanto, a piora das projeções inflacionárias, especialmente nos horizontes mais longos, abre espaço para uma interrupção do ciclo de flexibilização antes do previsto.
O cenário externo também adiciona complexidade. Nos Estados Unidos, a agenda da semana inclui dados relevantes de atividade, como vendas no varejo, além da sabatina de Kevin Warsh, que deve assumir posição de destaque no Federal Reserve. O mercado acompanha esses movimentos em busca de sinais sobre a futura condução da política monetária americana, em um contexto em que os juros devem permanecer elevados por mais tempo.
Em síntese, o ambiente inflacionário tornou-se significativamente mais desafiador. Com expectativas em alta e novos choques de custos em curso, o espaço para cortes adicionais de juros no Brasil parece cada vez mais limitado. O Banco Central, pressionado por um cenário menos benigno, tende a adotar postura mais cautelosa nas próximas decisões.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
