BRICS+ e a ordem em disputa: o mundo já não cabe mais em uma hegemonia
A trégua provisória entre Estados Unidos e Irã não encerra a guerra. Ela expõe algo mais profundo: a incapacidade crescente de Washington de impor soluções duradouras nos termos que historicamente definiu. O que se vê não é o fim de um conflito, mas a revelação de um limite — e, com ele, a abertura de um espaço.
É nesse espaço que o debate sobre o papel do BRICS ganha densidade.
Um artigo recente de Jim O'Neill sugere que o conflito no Oriente Médio pode deslocar o equilíbrio estratégico em direção ao eixo asiático e oferecer ao BRICS a oportunidade de se afirmar como liderança inevitável da nova ordem global. A formulação é provocativa — e parcialmente correta. Mas precisa ser reposicionada.
O ponto central não é que os BRICS estejam prestes a substituir os Estados Unidos como novo centro hegemônico. O ponto é outro: o mundo já não comporta mais uma hegemonia única.
O esgotamento da centralidade americana
Durante décadas, a ordem internacional funcionou sob uma premissa relativamente estável: os Estados Unidos eram capazes de combinar poder militar, capacidade financeira e legitimidade política para arbitrar crises e estruturar consensos.
Esse arranjo claramente já não se sustenta.
A guerra envolvendo o Irã deixou isso evidente. A intervenção ocorreu sem planejamento estratégico claro, sem construção de coalizão política robusta e, sobretudo, sem capacidade de produzir um desfecho estável. O resultado não é vitória — é contenção de danos.
Esse tipo de atuação tem consequências sistêmicas. Quando a principal potência global demonstra capacidade de iniciar conflitos, mas não de resolvê-los, abre-se um vazio de governança. E vazios de governança não permanecem vazios por muito tempo.
BRICS : não hegemonia, mas centralidade
É nesse contexto que o BRICS deve ser compreendido.
Não como um bloco coeso pronto para "governar o mundo", mas como uma plataforma de coordenação entre grandes economias emergentes que passam a ter papel crescente na definição dos termos da ordem internacional.
A ampliação recente do grupo — formalizada na cúpula de Joanesburgo, em 2023, e consolidada ao longo de........
