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A falsa missionária

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25.05.2026

Carla Zambelli nunca quis apenas exercer um mandato parlamentar. Ao longo dos anos, construiu para si a imagem de combatente investida de uma missão quase sagrada: salvar o Brasil de inimigos que ela própria ajudou a inventar e alimentar. Como ocorre frequentemente nos movimentos políticos radicalizados, a política deixou de ser espaço de convivência democrática para se transformar numa batalha moral absoluta entre “puros” e “corruptos”, “patriotas” e “traidores”. O problema é que, quando líderes passam a se enxergar como enviados de uma causa superior, as instituições democráticas deixam de ser limites e passam a ser obstáculos.

Toda falsa missionária precisa de um inimigo permanente. Sem ele, desaparece a própria personagem. Carla Zambelli construiu sua trajetória política alimentando conflito, indignação e teorias de perseguição. A deputada não atua como representante republicana tradicional. Atua como alguém convencida de possuir uma autorização moral superior às próprias regras democráticas.

Esse talvez seja um dos fenômenos mais perigosos da extrema direita contemporânea. Não se trata apenas de divergência ideológica. Democracias convivem naturalmente com conflitos políticos. O problema surge quando determinados grupos passam a acreditar que representam não apenas um projeto político, mas uma espécie de verdade absoluta, acima das instituições, das leis e até da própria realidade factual.

O bolsonarismo estimulou precisamente esse ambiente psicológico e político. Muitos de seus quadros passaram a agir como personagens de uma cruzada permanente. Não existe adversário legítimo; existe apenas o inimigo. Não existe crítica democrática; existe perseguição. Não existe responsabilização judicial; existe martírio político.

É nesse universo que Carla Zambelli construiu sua identidade pública.

Sua ascensão política não ocorreu pela elaboração de propostas estruturadas para o país nem pela capacidade de articulação institucional. O que a transformou em figura nacional foi justamente a lógica do confronto permanente. A deputada tornou-se conhecida por performances políticas baseadas em choque, tensão, redes sociais, acusações inflamadas e mobilização emocional de sua base.

A deputada justiceira

A cena que talvez melhor simbolize essa trajetória ocorreu às vésperas das eleições de 2022, quando Carla Zambelli perseguiu, armada, um homem negro pelas ruas de São Paulo após uma discussão política. Não se tratava apenas de uma parlamentar exaltada. A imagem revelava algo mais profundo e inquietante: a naturalização da ideia de que determinados agentes políticos podem agir como justiceiros investidos de autoridade moral........

© Brasil 247