Reconectar o trabalho, renovar a política
A classe trabalhadora não desapareceu. Mudou de lugar, de ocupação e de linguagem. Está nas fábricas, mas também nos serviços, no comércio, na logística, no trabalho de cuidados, nas plataformas digitais e no empreendedorismo por necessidade. O desafio da política democrática é compreender essa transformação e reconstruir formas de organização capazes de converter experiências dispersas em um projeto coletivo de futuro.
A passagem da sociedade industrial para uma sociedade de serviços hiperconectada, financeirizada e digitalizada alterou as relações de trabalho, as identidades coletivas e as possibilidades de mobilização. O trabalhador industrial deixou de ocupar sozinho o centro da experiência social, enquanto sindicatos, partidos e associações enfrentam dificuldades para representar uma população cada vez mais heterogênea.
O novo sujeito social que emerge não nasce pronto, nem resulta automaticamente de uma posição comum na economia (Pochmann, 2026). Ele se constitui historicamente, a partir de experiências, conflitos, valores e formas de organização. Como demonstrou Edward P. Thompson, uma classe não é apenas uma categoria econômica, também uma construção social e política. Ricardo Antunes (2018), por sua vez, mostra que a expansão do trabalho digital não elimina a exploração, mas reorganiza suas formas, combinando discursos de autonomia com insegurança e subordinação. Da mesma forma, a inserção na globalização transformou a divisão internacional do trabalho e as oportunidades de emprego.
A questão contemporânea é que a sociedade está cada vez mais conectada, mas não necessariamente organizada. Pessoas submetidas a inseguranças semelhantes podem compartilhar indignações nas redes, participar de mobilizações e expressar desconfiança das instituições sem construir um projeto coletivo duradouro. O ressentimento pode aproximar indivíduos isolados, mas também pode ser explorado por lideranças autoritárias que identificam inimigos e prometem restaurar uma ordem idealizada.
O que está em disputa não é apenas a representação de uma classe que mudou, mas a formação de um sujeito coletivo capaz de transformar insatisfações individuais em solidariedade, organização e poder democrático.
A autonomia desejada e a insegurança vivida
Uma parte da esquerda ainda interpreta as novas formas de trabalho apenas como desvios de um modelo de emprego formal que deveria voltar a predominar. Ao ridicularizar quem se apresenta como empreendedor, trabalhador por conta própria ou “CEO de MEI”, corre o risco de desprezar aspirações legítimas de autonomia, reconhecimento e mobilidade social.
O desejo de melhorar de vida não significa, por si só, adesão ao neoliberalismo. A pesquisa qualitativa da Fundação Perseu Abramo (2017) sobre as periferias de São Paulo identificou a convivência entre a valorização do esforço individual, a expectativa de ascensão pelo empreendedorismo e a importância atribuída à estabilidade, aos direitos e à proteção pública.
Essa discussão reaparece na análise da antropóloga Rosana Pinheiro-Machado sobre os sonhos do novo trabalhador, apresentada por Tavares (2026). A aspiração de empreender pode expressar o desejo de escapar de empregos mal remunerados, de chefias autoritárias e de trajetórias profissionais bloqueadas. Mas a autonomia prometida pode conviver com jornadas extensas, renda instável, endividamento e ausência de proteção.
O desafio não é escolher entre liberdade e segurança. É garantir que a autonomia não seja sinônimo de abandono. Isso exige ampliar direitos sociais independentemente da forma de contratação, fortalecer a proteção previdenciária, assegurar condições dignas de trabalho e abrir oportunidades reais de mobilidade. A política democrática precisa reconhecer as aspirações individuais sem aceitar que a responsabilidade por todos os riscos recaia exclusivamente sobre cada trabalhador.
A transformação do mundo do trabalho também desafia as formas tradicionais de representação. O trabalhador de aplicativo, a cuidadora, o técnico terceirizado, o funcionário do comércio e o pequeno empreendedor podem não se reconhecer numa mesma identidade política. Ainda assim, compartilham preocupações com renda, moradia, transporte, dívidas,........
