Os Invisíveis da República: por que o Brasil levou mais de um século para contar quem vive nas ruas
O Brasil está prestes a realizar algo que deveria ter ocorrido há muito tempo. Contar oficialmente a população em situação de rua.
Mais uma iniciativa liderada pelo IBGE que representa um marco histórico neste início do segundo quarto do século XXI, ainda que também seja uma revelação incômoda. Afinal, como explicar que um país que realiza censos há mais de 150 anos somente agora decida conhecer, de forma sistemática, uma parcela da população que sempre esteve presente em suas cidades?
A resposta é desconfortável. A invisibilidade estatística sempre acompanhou a invisibilidade social.
Desde a independência nacional, o Estado brasileiro desenvolveu mecanismos para registrar riquezas, propriedades, atividades econômicas e parcelas da população consideradas relevantes para a administração pública. Ao longo do tempo, aperfeiçoaram-se censos, pesquisas domiciliares e registros administrativos. O país passou a conhecer cada vez melhor a sua dinâmica demográfica, econômica e territorial.
Mas uma parte dos brasileiros permaneceu à margem desse esforço de conhecimento.
Os primeiros invisíveis foram os povos indígenas submetidos à expansão colonial. Depois vieram milhões de escravizados tratados como patrimônio econômico antes de serem reconhecidos como cidadãos. Após a abolição, multidões de ex-escravizados foram abandonadas à própria sorte, sem acesso à terra, trabalho protegido ou moradia. Muitos passaram a compor a massa de pobres urbanos, agregados, mendigos, ambulantes, trabalhadores ocasionais e habitantes das ruas das cidades brasileiras em expansão.
A literatura nacional registrou essa realidade muito antes de as estatísticas oficiais se interessarem por ela. No século XIX, autores como Machado de Assis, Aluísio Azevedo........
