O falso centro e a despolitização como linhas auxiliares do bolsonarismo – o rivotril político do Doutor Cury
Confesso que não li os livros de autoajuda do Doutor Cury. Sempre tive a opinião de que livros de autoajuda só ajudam realmente seus próprios autores.A julgar pelo patrimônio declarado do candidato (R$ 242.281.162,52, segundo o TSE), pelo número de “obras literárias” vendidas (cerca de 40 milhões) e pela multidão de seguidores que possui (ao redor de 8 milhões), esse foi, sem dúvida, o caso do Doutor Cury. Não ajudou as massas, mas se auto ajudou em massa.Ademais, antes de ler qualquer coisa, sempre penso na célebre frase cunhada por Arthur Fletcher, em 1972, para o United Negro College Fund (UNCF), como forma de auxiliar uma campanha para amealhar fundos para universidades frequentadas por jovens afrodescendentes: “A mind is a terrible thing to waste” (“uma mente é algo terrível de se desperdiçar”, que me perdoe Arthur Fletcher pela tradução).Por essa razão, evito a subliteratura rasa e maçante típica dos livros de autoajuda. Não ajuda e faz doer os neurônios. Depois, custa muito para tentar “des-ler”. Fica impregnado, como refrão de música pop medíocre.E pior do que a literatura de autoajuda é a literatura de autoajuda que assume ar de cientificidade. Pelo que soube, o Doutor Cury se autointitula o desenvolvedor de duas “grandes teorias” da neuropsiquiatria moderna: a “Teoria da Inteligência Multifocal” e a “Teoria da Síndrome do Pensamento Acelerado”.Curiosamente, ninguém na comunidade científica reconhece a validade dessas “teorias” desenvolvidas sem quaisquer evidências empíricas e sem nenhum estudo minimamente rigoroso. Pouco importa, faz muito sucesso entre leigos necessitados de consolo.Reconheço, por outro lado, que, por dever de ofício, li o programa de governo do “Doutor”. Não com muito vagar, pois trata-se, na realidade, de um amontoado de platitudes requentadas. Um programa de autoajuda para o eleitor brasileiro.Detive-me, mais atentamente, no Prefácio e na Introdução, assinados pelo “Doutor” e na parte do programa que se refere à política externa. Me bastou.O Prefácio intitula-se CULTURA DA PAZ EM UMA SOCIEDADE POLARIZADA E ADOECIDA e a Introdução tem como título O BRASIL NÃO ESTÁ EM DOIS BARCOS.Lá pelas tantas, no Prefácio, lê-se o seguinte:Por que permitir que o radicalismo destrua a capacidade de pensar? Não proponho neutralismo. Neutralidade absoluta diante das dores humanas pode ser covardia intelectual. Também não proponho um comportamento morno. O morno frequentemente se omite diante das injustiças. O que proponho é algo mais complexo e mais difícil: maturidade emocional e inteligência política. Meu coração abraça os valores sociais mais nobres da esquerda. Minha mente valoriza os pilares econômicos e institucionais mais sólidos da direita.Mais à frente, na Introdução, escreve-se o seguinte:Criou-se uma das maiores ilusões políticas da história moderna: acreditar que existem dois barcos navegando em oceanos separados, um chamado direita e outro chamado esquerda. Essa divisão emocional contaminou famílias, amizades, escolas, universidades e até igrejas. Pessoas passaram a acreditar que o adversário ideológico deve ser destruído e não compreendido. O debate foi substituído pelo ataque. A reflexão foi substituída pelo cancelamento. O diálogo perdeu espaço para os gritos. As redes sociais amplificaram impulsos agressivos. A inteligência coletiva começou a adoecer silenciosamente. E milhões passaram a viver aprisionados em bolhas emocionais.Há uma passagem bastante reveladora, na Introdução, na qual se alega o que se segue:Martin Luther King iria às ruas de Brasília, conduzindo líderes que hoje se digladiam a lutar pelo mais nobre dos sonhos: a família brasileira, mitigando a guerra de egos e transformando as divergências na beleza da democracia. E eu, Augusto Cury, inspirado por........
