Universidade e democracia
Este ataque à universidade e à ciência tem como elemento central a deslegitimação do que oferecemos à sociedade. É uma verdadeira cruzada contra o capital cultural
A palavra “crise” anda hoje tão desgastada que a gente até reluta em usá-la. Vivemos em crise permanente, de tudo, há tempos: crise climática, crise econômica, crise do trabalho, crise da família, crise da verdade, crise dos serviços públicos, crise do Estado, crise do multilateralismo… Está tão normalizada a situação de crise que a palavra perdeu sua força.
E, para piorar, sempre aparece alguém munido de algum manual de autoajuda empresarial para nos lembrar que o ideograma chinês para “crise” é formado por “perigo” “oportunidade”. Acabamos com uma crise tão domesticada que ela parece ser nada mais do que um estímulo para o crescimento e o progresso: a crise como “astúcia oculta da natureza”, por assim dizer.
É com relutância, portanto, que inicio esta fala evocando duas crises simultâneas que nos afetam: a crise da democracia e a crise da universidade. Embora não representem a mesma coisa, a relação entre elas não é de exterioridade. A universidade, para florescer, precisa obviamente da democracia: precisa de um ambiente de debate aberto, em que as certezas estimadas pelos donos do poder possam ser questionadas.
Afinal, a ciência, quando é bem-feita, tem o dom de incomodar. Seu papel é sempre o de desestabilizar certezas e ampliar a complexidade de nossa visão, na contramão de discursos fáceis e unilaterais. Uma tirada célebre de Millôr Fernandes diz: “Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados”. Acredito que, igualmente, a ciência só é ciência de verdade se está pronta a afrontar o poder. Ela deve sacudir verdades estabelecidas sem medo de incomodar os poderosos.
Portanto, a universidade necessita de um espaço social em que a produção e a transmissão do conhecimento não sejam cerceadas por qualquer tipo de veto. É de onde nasce a exigência de autonomia universitário, que não é uma bandeira arbitrária, mas uma derivação lógica de sua própria missão.
Ao mesmo tempo, a democracia precisa da universidade. Precisa de um lugar para o pensamento crítico, para o questionamento, para a construção coletiva de alternativas. Um lugar que, dotado de seus próprios mecanismos de legitimação, tenha forças para resistir às pressões do poder político, das religiões e do mercado.
A crise da democracia a que me refiro aparece no debate público, nas manchetes dos jornais e em muito dos trabalhos de minha própria disciplina, a Ciência Política, como sendo o crescimento do “populismo”. Não vou me aprofundar neste debate, que é complexo e começa com a disputa sobre o conceito de populismo, mas é importante ressaltar, para o percurso que pretendo trilhar aqui hoje, que o sucesso de líderes autoritários como Donald Trump, Viktor Orbán, Jair Bolsonaro, Javier Milei e tantos outros, por dentro das instituições da própria democracia eleitoral, não é a crise – é apenas um de seus sintomas.
A crise é melhor descrita como sendo a ruptura do equilíbrio instável que permitia o funcionamento das democracias liberais, o equilíbrio entre o poder da classe dominante e o poder popular que se manifestaria pelo voto. Em suma, o compromisso democrático dava alguma voz aos dominados no processo de decisão e incluía a promessa de que seriam feitas concessões a seus interesses.
A partir do momento em que as classes dominantes endureceram a sua posição, recusando cumprir sua parte neste compromisso, o arranjo democrático foi se mostrando cada vez menos funcional. O que é chamado de “populismo” é apenas o uso oportunista do profundo descontentamento que essa situação gerou, por parte de empreendedores políticos.
Já a crise da universidade se liga à redução de sua legitimidade diante do público – que não é só dela, mas da educação em geral, da ciência e do pensamento crítico.
Isso se traduz em uma pressão crescente sobre a autonomia universitária, com retrocessos que são evidentes pelo mundo afora. Quando falo da pressão sobre a universidade e sobre sua autonomia, estou falando também, de forma mais geral, daquilo que afeta a ciência e toda a expressão do pensamento crítico sobre o mundo em que vivemos.
Estou falando do avanço do obscurantismo, da ignorância satisfeita consigo mesmo, do dogmatismo que se apresenta como manifestação de “princípios”, do negacionismo científico que serve para sustentar crenças e atitudes a despeito de qualquer evidência contrária. São movimentos que, obviamente, têm na direita seus maiores proponentes, mas que – é preciso dizer – também encontram eco em alguns setores da esquerda.
Nossa autonomia, não custa esclarecer, nunca foi indisputada. Se a universidade e a ciência em grande medida se emanciparam da religião e foram capazes de ganhar graus de independência em relação ao poder político, a pressão do poder econômico nunca refluiu. O modelo da universidade pública brasileira nos concede algumas garantias – em comparação, por exemplo, aos Estados Unidos, em que sub-áreas disciplinares inteiras, com inegável viés........
