Antropoceno, negacionismo e riscos climáticos
O Antropoceno é o período em que a ação humana se tornou a principal força de transformação do planeta. Embora sua formalização geológica seja debatida, o conceito é amplamente utilizado para descrever a época marcada por mudanças ambientais sem precedentes. O maior risco para a humanidade é que essas mudanças ultrapassem limites críticos do sistema terrestre, comprometendo as condições materiais que asseguram a existência da humanidade no planeta.
Há um certo consenso de que o aumento da temperatura global não deve ultrapassar 2ºC, sob pena de consequências imprevisíveis no que se refere a eventos climáticos extremos, como secas, inundações, desertificação, calor intenso, redução da produção agrícola, aumento no preço dos alimentos etc. Desde a Conferência Rio-92, porém, a ação dos “céticos do clima”, muitos deles ligados ao poderoso lobby da indústria do petróleo, conseguiu barrar os avanços que seriam necessários para evitar a situação alarmante em que nos encontramos hoje. O atraso foi tamanho que há, entre os cientistas, os que temem uma elevação de temperatura de até 4ºC!
As mudanças climáticas e a perda da biodiversidade já desencadearam um processo de destruição de recursos naturais que ameaça as condições de vida humana no planeta. Segundo Paul Crutzen – Prêmio Nobel de Química 1995 – já entramos em uma nova era geológica, o Antropoceno, em que o homem começa a destruir suas condições de existência no planeta.
Em 2002, o historiador John McNeill alertou em seu livro “Algo de Novo Sob o Sol” que a humanidade vem se aproximando perigosamente das “fronteiras planetárias”, ou seja, os limites físicos além dos quais pode haver colapso total da capacidade de o planeta suportar as atividades humanas. (Something New Under the Sun, McNeill, 2002). Os eventos climáticos extremos não cessam de confirmar sua advertência: secas, inundações, desertificação, falta d’água, temperaturas excessivas, desastres naturais, refugiados ambientais.
Em setembro de 2009, um artigo da revista Nature (A safe operating space for humanity – Rockström et alii, 2009a) afirma que pode estar sob grave ameaça a longa era de estabilidade – conhecida como Holoceno – em que a Terra foi capaz de absorver, de maneira mais ou menos suave, perturbações internas e externas. Um novo período, o Antropoceno, vem emergindo desde a Revolução Industrial e seu traço característico é a centralidade das ações humanas sobre as mudanças ambientais globais.
Muitos pesquisadores chegaram a advertir que, como as fronteiras planetárias estão sendo ultrapassadas, a solução seria caminhar na direção de uma governança global que ultrapassasse os atuais limites do soberanismo para um sistema internacional baseado no pós-soberanismo. É uma utopia diametralmente oposta ao negacionismo.
2 – Fases do Antropoceno
A primeira fase do Antropoceno teve início na Revolução Industrial. A segunda fase vai de 1950 até a segunda década do século XXI e vem sendo chamada de “A Grande Aceleração”. Entre 1950 e 2000, por exemplo, a população humana dobrou de 3 para 6 bilhões de pessoas e o número de automóveis passou de 40 para 800 milhões!
Segundo Paul Crutzen, citado acima, “os humanos estão prestes a fazer submergir as grandes forças da natureza. Após ter modificado, nestes últimos 50 anos, seu ambiente como nunca o fizera antes, perturbando o sistema climático e deteriorando o........
