menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

Vasudhaiva Kutumbakam: a antiga ideia indiana de que o mundo é uma família inspira a nova era dos BRICS

33 0
07.09.2026

Quando os líderes e representantes dos BRICS se reunirem em Nova Déli, nos dias 12 e 13 de setembro, haverá por trás das discussões sobre comércio, desenvolvimento, tecnologia, inteligência artificial, financiamento e reforma das instituições multilaterais uma ideia muito mais antiga do que a própria ordem internacional contemporânea. Trata-se de Vasudhaiva Kutumbakam, expressão em sânscrito normalmente traduzida como “o mundo é uma só família” e que oferece uma chave filosófica particularmente interessante para compreender não apenas a presidência indiana dos BRICS, mas também a afinidade estratégica existente entre Índia e Brasil.

Entre os grandes integrantes do agrupamento, Brasil e Índia ocupam posições especialmente semelhantes. São países continentais, sociedades profundamente multiculturais, grandes democracias do Sul Global e defensores históricos de uma reforma da governança internacional. Ao mesmo tempo, mantêm relações econômicas e diplomáticas sólidas com Estados Unidos, União Europeia e outros países ocidentais. Sua atuação internacional não pressupõe escolher entre Oriente e Ocidente, mas ampliar suas relações com todos os polos de poder preservando capacidade própria de decisão.

É daí que emerge um dos conceitos políticos mais importantes para compreender tanto Brasília quanto Nova Déli: autonomia estratégica. Para Brasil e Índia, fortalecer os BRICS e ampliar a voz do Sul Global não significa necessariamente construir um bloco contra o Ocidente. Significa aumentar a capacidade dos países emergentes de definir seus próprios interesses, diversificar suas alianças e participar da elaboração das regras internacionais sem submissão automática a qualquer centro de poder.

A 18ª Cúpula dos BRICS será realizada no Bharat Mandapam, em Nova Déli, sob a presidência indiana. O tema escolhido para 2026 é “Building for Resilience, Innovation, Cooperation and Sustainability” — “Construindo para a resiliência, inovação, cooperação e sustentabilidade”. O governo indiano acrescentou à agenda dois conceitos complementares: uma abordagem centrada nas pessoas e o princípio “Humanity First”, ou “Humanidade Primeiro”. É nesse encontro entre autonomia estratégica, multipolaridade e uma filosofia milenar de unidade humana que Vasudhaiva Kutumbakam ganha uma inesperada atualidade geopolítica.

A reunião terá ainda forte peso estratégico. O primeiro-ministro Narendra Modi receberá o presidente russo, Vladimir Putin, e o presidente chinês, Xi Jinping. Segundo informações divulgadas pela imprensa indiana, Xi deverá viajar acompanhado de uma comitiva de aproximadamente 400 integrantes, dimensão que, se confirmada, revela a importância atribuída por Pequim à cúpula. O Brasil será representado pelo chanceler Mauro Vieira, uma vez que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva permanecerá no país em plena campanha eleitoral.

O mundo inteiro como uma família

Vasudhaiva Kutumbakam pertence à antiga tradição filosófica sânscrita e aparece na Maha Upanishad. A expressão transmite a ideia de que, para uma consciência elevada, a divisão rígida entre “os nossos” e “os outros” perde importância diante de uma realidade maior: o mundo inteiro constitui uma família. Isso não pressupõe apagar culturas, religiões ou identidades nacionais. Ao contrário, significa reconhecer que a diversidade pode existir dentro de uma unidade humana mais ampla.

A Índia já havia levado essa filosofia ao centro da diplomacia mundial durante sua........

© Brasil 247