Voto útil para o Senado ou voto tutelado?
É legítimo o posicionamento eleitoral dos amigos e amigas aqui. Porém, se no início é o verbo, há que cuidar da linguagem e da palavra. Há, subentendida, uma moralidade hegemônica naturalizada que faz uso de adjetivações sobre mulheres que não são explicativas, mas julgadoras da realidade, como se tem feito com as candidatas ao Senado Benedita da Silva (PT) e Mônica Benício (PSOL) em nome do tal voto útil. Gênero, raça e orientação sexual são quase sempre os lugares onde se escorrega na discriminação oculta, mesmo sendo uma pessoa progressista.
Manter estes marcadores silenciados ou colocá-los no final da fila, do tipo “ainda não é dessa vez”, revela como a espera é uma tecnologia da destituição velada de nossas identidades.
Por vezes, o machismo internalizado se apresenta como masculinismo na palavra que organiza a consciência e no que está subentendido ou pressuposto. Faz-se do pressuposto o lugar da verdade e da autoridade, justamente porque ele não precisa se explicar. Há que ter atenção a isso, pois é na linguagem que está a primeira dimensão de identificação e ruptura dos pré-conceitos.
O problema não é alguém decidir estrategicamente o seu voto; é transformar uma estratégia contingente em verdade objetiva sobre o que todos os demais deveriam fazer. É aí que o pressuposto se converte em tutela do eleitor.
Outra coisa a que prestar atenção é perguntar, logo de partida: voto útil para quê e para quem? É da natureza da utilidade envelhecer rápido: aquilo que parece útil antes do voto........
