Da bomba do Riocentro de 1981 ao 8 de janeiro de 2023
Às vezes, a história rima. Não da forma exata como gostariam os poetas. Nem com a precisão dos livros didáticos. Mas rima. Foi ouvindo um relato do escritor Raul Ruffo sobre a origem de uma das mais belas canções da música popular brasileira que essa ideia voltou à memória.
Ruffo recorda o atentado do Riocentro, em 30 de abril de 1981. O Brasil ainda vivia sob a ditadura militar. Milhares de pessoas participavam de um grande show em comemoração ao Dia do Trabalhador quando uma bomba destinada a provocar uma tragédia explodiu antes da hora. E explodiu justamente dentro do carro onde estavam os próprios agentes envolvidos na operação.
Entre os artistas presentes, que poderiam figurar como vítimas fatais de uma tragédia premeditada pelos porões da ditadura, estavam nomes fundamentais da nossa música, como Gal Costa, Gonzaguinha, Elba Ramalho e Moraes Moreira. A presença desses ícones não era casual: eles eram os porta-vozes de uma geração que, por meio de suas composições, desafiava sistematicamente a censura e o silêncio imposto pelo regime militar.
A bomba não atingiu a multidão. Voltou-se contra quem a carregava. Segundo o relato de Ruffo em Como as músicas foram feitas, o episódio impressionou profundamente o letrista Abel Silva. Ele teria começado a construir mentalmente uma letra que falava de bombas e explosões, mas invertendo completamente seu significado.
Contra a bomba da morte, a bomba da alegria. Contra a destruição, a celebração da vida. Contra o medo, a festa.
Ligou para Moraes Moreira e leu o esboço do que estava pensando. Pouco depois, Moraes retornou com letra e melodia prontas. Nascia ali Festa no........
