A Guerra do Paraguai ao contrário
Há um vício na maneira como o Brasil lê Donald Trump: tratamos o fato dele ser errático como sinônimo de irracionalidade. Quem ele chama de amigo pela manhã pode ser inimigo à tarde, e a lista de parceiros e ameaças aos Estados Unidos parece depender do café da manhã do presidente. Tudo isso é verdade. Mas confundir volatilidade de estilo com ausência de estratégia é o erro analítico mais perigoso que podemos cometer neste momento. Trump não é burro — e aprendeu, no Oriente Médio, uma lição precisa sobre como mover um adversário regional sem disparar o gatilho de uma guerra ampla.
A lição é cirúrgica: para golpear um país relevante de um bloco como os BRICS sem que o bloco reaja, bastam três ingredientes. Primeiro, algum apoio das elites internas do próprio país-alvo. Segundo, duas ou três mentiras convertidas em “teses” de circulação internacional, repetidas à exaustão em redes cujos algoritmos amplificam o que é conveniente a Washington. Terceiro, dois ou três vizinhos dispostos a emprestar território, retórica e, no limite, exércitos. É exatamente esse tabuleiro que se monta na América do Sul — e o roteiro tem um nome histórico que deveríamos reconhecer de imediato.
Os três movimentos da semana
Tomemos os fatos, não as impressões. Em 28 de maio de 2026, o Departamento de Estado classificou Comando Vermelho e PCC como organizações terroristas, com a designação de “organizações terroristas estrangeiras” entrando em vigor em 5 de junho. No dia 2 de junho, o USTR divulgou a determinação da investigação da Seção 301 sobre o Brasil — investigação aberta em julho de 2025 e cujo cardápio inclui, nominalmente, “comércio digital e serviços de pagamento eletrônico”, isto é, o PIX —, com audiência marcada para 6 de julho e prazo estatutário de ação em 15 de julho. E, no mesmo 2 de junho, em audiência no Senado, Marco Rubio listou o Brasil entre as exceções à América Latina “repleta de aliados” dos EUA, ao lado de Venezuela, Nicarágua e Cuba.
Três........
