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Burocracia: uma história mal contada

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13.08.2026

A direita política e o pensamento neoliberal construíram, ao longo de décadas, uma narrativa extremamente conveniente: a burocracia seria um defeito de fabricação do Estado. Tudo aquilo que demora, exige formulário, carimbo, protocolo, senha, documento, certidão, parecer e despacho é imediatamente apresentado como prova da incompetência estatal. O Estado seria, por natureza, lento, pesado, irracional e incapaz de fazer aquilo que a iniciativa privada faria com muito mais eficiência. É uma narrativa sedutora porque contém uma parte da verdade. Estados podem ser burocráticos, criar procedimentos absurdos, estruturas redundantes, repartições que existem mais para justificar a existência de outras repartições do que para prestar algum serviço à sociedade. Podem transformar uma coisa simples numa peregrinação kafkiana por corredores, guichês e plataformas digitais. Ninguém, em sã consciência, deveria defender a burocracia simplesmente porque ela é estatal. O problema começa quando essa constatação legítima se transforma numa explicação universal, como se a burocracia fosse uma doença exclusiva do Estado e as empresas privadas fossem, por definição, organismos ágeis, racionais, transparentes e interessados em resolver rapidamente os problemas de seus clientes. Não são.

Existe uma burocracia privada gigantesca, silenciosa e cotidiana, que raramente recebe esse nome. Ela está na empresa que manda o consumidor ligar para um número, depois para outro, entrar num aplicativo, preencher um formulário, esperar um protocolo e explicar novamente o problema para outro funcionário que não tem autorização para resolvê-lo. Está na operadora que transfere o cliente de setor em setor, no banco que exige sucessivas confirmações para uma operação banal, na seguradora que pede documentos que já possui, na companhia aérea que manda o passageiro preencher formulários, na plataforma digital que oferece dez menus e nenhuma pessoa capaz de solucionar o problema. Quando o Estado faz isso, chama-se burocracia. Quando uma empresa faz exatamente a mesma coisa, frequentemente chama-se procedimento interno. A diferença, às vezes, está apenas no vocabulário. A burocracia estatal é visível: tem endereço, funcionário, repartição, placa, orçamento e autoridade pública. Pode ser fotografada, denunciada e transformada em símbolo da ineficiência. A burocracia privada, ao contrário, aparece diluída em centrais telefônicas, contratos de adesão, sistemas informatizados, protocolos, departamentos jurídicos, políticas internas e algoritmos. Mas produz o mesmo efeito: impedir, retardar ou dificultar o acesso de uma pessoa a alguma coisa.

E existe algo ainda mais perverso: às vezes, a burocracia estatal não é simplesmente um acidente da administração pública. Ela pode ser politicamente produzida, agravada ou mantida justamente por aqueles que depois a utilizam como argumento contra o Estado. Um governo privatista assume uma empresa pública. Em vez de modernizá-la, profissionalizá-la, investir em tecnologia, melhorar seus processos e estabelecer metas de eficiência, começa a submetê-la a uma sucessão interminável de controles, autorizações, exigências, departamentos, restrições e procedimentos. A máquina vai ficando pesada. O serviço piora. O cidadão reclama. Então aparece o salvador: “Está vendo? Empresa estatal não funciona”. Primeiro, cria-se ou preserva-se a ineficiência. Depois, apresenta-se a própria ineficiência como característica inevitável do Estado. Finalmente, oferece-se a privatização como única saída racional. É uma operação política bastante antiga: produzir o problema para depois vender a solução. Não estou dizendo que toda burocracia estatal seja criada deliberadamente para favorecer privatizações. Isso seria tão simplista quanto afirmar que toda burocracia é necessariamente boa. O que........

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