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Autismo e política: por uma clínica da delicadeza

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01.02.2026

Pode-se dizer que o termo “autismo” surgiu em 1908, forjado pelo psiquiatra suíço Eugen Bleuler (1857–1939), como um sintoma fundamental da psicose esquizofrênica, na forma de retraimento social, com a correlata fuga da realidade externa para o mundo interior. Conforme o psicanalista lacaniano francês Jean-Claude Maleval (79 anos): “Segundo Jung, o termo bleuleriano seria uma contração de ‘autoerotismo’” – conforme a Carta de Jung, de 13 de maio de 1907. In: S. FREUD; C. G. JUNG, Correspondência completa. Organização de W. McGuire. Rio de Janeiro: Imago, 1976, p. 86.

Com os estudos clínicos de Leo Kanner (1894–1981) e Hans Asperger (1906–1980): “um em 1943, em Baltimore (EUA); outro em 1944, em Viena (Áustria), sem que conhecessem os trabalhos um do outro, isolaram um quadro clínico muito semelhante e o denominaram com o mesmo termo: ‘autismo’”, de acordo com Maleval. Kanner o descreveu como “Distúrbio Autístico do Contato Afetivo” e Asperger como “Psicopatia Autística”.

Embora o autismo tenha sido destacado e isolado na década de 1940, conforme dito, o termo vai aparecer oficialmente somente em 1952, na primeira edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM) – uma espécie de “bíblia” universal em matéria de saúde mental –, mas citado apenas como um sintoma da esquizofrenia infantil. Somente em 1980, com a publicação do DSM-III, o autismo tornou-se uma entidade clínica nosográfica independente, com o nome “Autismo Infantil”, evoluindo para “Transtorno Autista” no DSM-III-R (1987). O DSM-IV, publicado originalmente em 1994, também sofreu uma revisão no ano de 2000, resultando no DSM-IV-R. Segundo o psicanalista francês Éric Laurent, o “autismo foi reduzido ao contexto de TID (Transtornos Invasivos do Desenvolvimento)”. Nessa nova versão revisada, o “Autismo Infantil” foi associado à Síndrome de Asperger e ao Transtorno Desintegrativo da Infância. Desde então, é importante salientar, inclusive na abordagem contemporânea, que a causa do autismo é atribuída a fatores biológicos, genéticos ou ambientais, embora vários psicanalistas lacanianos, eminentemente Rosine e Robert Lefort, tenham proposto uma via de abordagem radicalmente diferente e subversiva, privilegiando o inconsciente e o último ensino do psicanalista francês Jacques Lacan (1901–1981), sobrelevando o autismo à quarta estrutura subjetiva, ao lado das neuroses, psicoses e perversões.

Em 2013, foi publicado o DSM-V, sua versão atual, provocando “uma mudança paradigmática acerca da classificação do autismo, isto porque o conceito de espectro, tão defendido por Lorna Wing, passou a ser utilizado. A nova classificação foi denominada Transtorno do Espectro Autista (TEA)”.

Entrementes, na esteira da “batalha do autismo” de Laurent: “desde o final dos anos 1960, os pais pressionaram a favor do diagnóstico de autismo, pois era a única forma de distúrbio de aprendizagem que não estava classificada como ineducável no Reino Unido”. Portanto, era preciso enquadrar o autismo no campo da “deficiência” – diferente de doença –, para que os pais reivindicassem direitos de acesso dos filhos autistas a instituições de educação especializada.

Nos Estados Unidos da América (EUA): “o retardo mental da irmã de John Kennedy também favoreceu a sensibilização dos poderes públicos no tocante a esses direitos”. Dessa forma, o autismo se espalhou feito epidemia, o que obrigou maiores investimentos em pesquisa e ofertas de créditos para a educação das crianças autistas.

O deslocamento de foco, da “doença incurável” para a “deficiência educável”, pode ser atribuído também à falta de eficiência dos medicamentos prescritos para a patologia autista, especialmente os neurolépticos (antipsicóticos), o que “torna, sem dúvida, mais necessário o anúncio de progressos decisivos nas pesquisas genéticas ou ambientais – ainda que apenas para diminuir a angústia dos pais e familiares dos autistas”, de acordo com Laurent. O autismo não era mais uma doença a ser tratada, mas uma “deficiência” a ser educada.

Nos Estados Unidos da América e na Inglaterra, “os partidários das terapias comportamentais e educativas propõem mobilizar os pais e crianças num esforço intensivo e sem descanso, exigindo o investimento máximo de cada um – tanto financeiro quanto relacional, e em todos os momentos do dia”, levando um número expressivo de pais ao esgotamento e colapso, com consequências trágicas e letais.

É importante destacar ainda o impacto retumbante produzido pelo texto-manifesto de Jim Sinclair (63 anos), militante autista e ativista norte-americano, Não chore por nós (“Don’t Mourn for Us”), escrito e apresentado na Conferência Internacional sobre Autismo de 1993, em Toronto. Ao lado da brilhante escritora e artista australiana, também autista, Donna Williams (1963–2017), são considerados pioneiros na defesa intransigente dos direitos dos autistas pelo mundo, em palestras, conferências, artigos e livros, fundadores do Movimento de Direitos dos Autistas na década de 2000, com a participação expressiva de autistas, familiares e simpatizantes da causa, também críticos ferrenhos da onda mundial ultradireitista da pecha antivacina.

No ensaio Não chore por nós, destinado aos autistas de diferentes habilidades, pais........

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