Centrismo reacionário fortalece a extrema-direita nos EUA e no Brasil
No artigo publicado no The Guardian, no dia 03 de fevereiro de 2026, intitulado “Beware of ‘anti-woke’ liberals: they attacked the left and helped Trump win” (Cuidado com os liberais ‘anti-woke’: eles atacaram a esquerda e ajudaram Trump a vencer, em tradução livre), o cientista político alemão Jan-Werner Müller, professor da Princeton University, lança uma advertência contundente aos que ainda acreditam que a autoproclamada posição centrista representa equilíbrio e racionalidade frente à polarização política. Em vez disso, Müller analisa como esse suposto centrismo — particularmente na forma dos chamados “liberais anti-woke” — serviu como combustível para a extrema-direita nos Estados Unidos, contribuindo diretamente para a reeleição de Donald Trump em 2024.
A ameaça autoritária não se fortalece apenas pela extrema-direita, mas também pela ação — muitas vezes disfarçada de neutralidade — de setores do centro político. É o que ele chama de centrismo reacionário.
Centrismo reacionário é a postura política daqueles que se apresentam como “moderados”, “equilibrados” ou “racionais” num espaço político polarizado, mas que na prática atuam sistematicamente para deslegitimar a esquerda democrática, normalizar a retórica da extrema-direita e enfraquecer as instituições que sustentam o Estado de Direito.
Esses atores — jornalistas, políticos, analistas, juristas — se dizem alheios aos “radicalismos dos dois lados”, mas acabam criando uma falsa equivalência moral entre quem defende a ampliação de direitos e quem ataca frontalmente a democracia. Ao fazê-lo, deslocam o centro do debate público em direção à direita e, sob o pretexto de combater “excessos identitários” ou o “politicamente correto”, reforçam a agenda da reação conservadora.
Não se trata, evidentemente, de impedir críticas aos setores progressistas ou aos movimentos identitários. Essas críticas são legítimas — e necessárias — em uma democracia viva. Adendando Müller, a agressividade rancorosa, muitas vezes adotada por esses movimentos, precisa ser denunciada e combatida, pois afasta possíveis e necessários aliados. O problema, como apontado pelo autor, está na equiparação simplista e enganosa entre essas pautas e os projetos autoritários de extrema-direita, como se reivindicar inclusão e justiça social fosse tão “ameaçador” quanto flertar com o golpismo, o racismo e o........
