A terra que veio agarrada à mão
Foi numa tarde de setembro, num daqueles setembros secos em que a terra estala. Afastei a estilha com o pé, meti a mão por baixo e a terra veio agarrada aos dedos. Húmida. Sem ter chovido, sem uma gota de rega.
Aquele pedaço de terra tinha antes de ser coberto e redesenhado, sete anos de plantação de aromáticas em monocultura biológica, com tela de solo no chão, que é uma maneira educada de dizer que debaixo do plástico não havia vida. Quando abandonei o cultivo das aromáticas, em 2017, o solo parecia uma placa dura de cimento, de tão pobre e seco que estava.
O que fiz entretanto não tem mistério. Plantei 60 espécies no mesmo espaço, simulando as dinâmicas da floresta original, com espécies de diversos ciclos e necessidades de luz, prontas a ocupar espaços e tempos diferentes no futuro. Podo, trituro e deito ao chão. Ano após ano, sempre a mesma coisa, e sempre com a sensação, nos primeiros tempos, de estar a fazer um trabalho invisível. Na verdade, estou a simular os distúrbios da natureza que fazem os ecossistemas avançar para estágios de maior abundância.
A estilha explica uma parte daquela humidade. Uma cobertura de dez centímetros corta a evaporação e desliga o solo do vento e do sol, e isso funciona logo no primeiro ano. A terra vir agarrada à mão ao fim de seis anos é outra coisa. É uma estrutura que se faz de matéria orgânica, de fungos e de raízes a colar as partículas umas às outras. Uma análise sumária ao solo feita para o projecto Growlife em 2023 deu resultados animadores. Uma quinta não faz ciência, mas há literatura suficiente sobre o tema para eu não precisar de transformar a minha experiência numa prova isolada.
Uma árvore constrói-se a partir do ar
Convém explicar algo simples que não é do conhecimento comum. Uma árvore constrói-se a partir do ar. O carbono entra pela folha, a luz junta-o à água, e o resultado é madeira. O solo onde ela cresceu continua a pesar praticamente o mesmo.
Percebi isso há muitos anos a olhar para cinzas. Queima-se um tronco até ao fim e o que sobra no chão cabe numa pá, menos de 1% do peso da madeira, e são os minerais, o cálcio, o potássio, o fósforo, aquilo que a árvore foi buscar ao solo pelas raízes. Todo o resto subiu, e todo o resto tinha vindo do ar e da água. Com uma exceção que interessa reter, porque o azoto veio do chão e vai em fumo. É por isso que a cinza engana quem lhe chama adubo.
Esse carbono fica sobretudo na madeira. O nitrogénio fica sobretudo na folha. Quando a madeira apodrece e a folha........
