O Governo queria, mas não estamos em França. Opinião de Pedro Marques Lopes
1. Passei bastantes dias sem conseguir perceber por que diabo manifestações pacíficas estavam a ser alvo de cargas policiais particularmente violentas e desproporcionadas.
As causas que motivam os protestos são apoiadas pela grande maioria da população, e mesmo quem não concorda com algumas das reivindicações compreende o desespero de tantos jovens que não conseguem ter um início de vida minimamente digno.
Compreende-se a simbologia das tendas, já que está sobretudo em causa o acesso à habitação. Mas também é verdade que este tipo de protesto já foi usado várias vezes, pelas mais diversas causas. Recordo, por exemplo, a acampada de 2011 no Rossio, em que os manifestantes estiveram mais de oito dias sem ser alvo de cargas com a violência a que assistimos na semana passada. Terminou com toda a normalidade.
Ponto de ordem: o uso da violência pelo Estado é legítimo quando está em causa a ordem democrática. Mas tem de ser proporcional aos valores ameaçados. Não foi rigorosamente nada disso que esteve em causa nestas ações da polícia. Foi algo gratuito, impróprio de uma democracia liberal.
Atalhemos: o Governo quis transformar um protesto normal numa questão de ordem pública.
As razões são agora claras. Pretendeu-se, em primeiro lugar, desviar a conversa do problema central (a habitação) e de todas as implicações que tem na vida das pessoas. O estúpido – não há outra forma de o dizer – é que todos, manifestantes ou não, sabem que não existem soluções mágicas para a questão. Bastava ao Governo mostrar vontade de não agravar o problema – já........
