Quem é o outro?
Estão as duas à espera de que um equipamento fique livre no ginásio enquanto falam. Uma delas conta a viagem que fez, acompanhando um DJ americano de Londres para Lisboa, em trabalho. “Quando chegámos ao aeroporto, perguntou: porque é que temos de passar pela Imigração? Eu sou americano!” Riem-se as duas. Não sei se da soberba do americano, que se considera a si mesmo um cidadão do mundo, incapaz de se ver em algum momento como imigrante ou estrangeiro. Ou se da ironia revelada pelo espanto de quem vem de um país que tem um Presidente eleito à custa de fazer da perseguição aos imigrantes uma prioridade política. Creio que são duas boas razões para se rir: a soberba e a ironia. Mas há um momento em que temos de deixar de rir.
No dia em que ouvi esta conversa, tropecei nas redes sociais nas imagens de um político de extrema-direita. Estava, como é costume, no meio de uma moldura de gente, que se atropelava para conseguir ficar no enquadramento das fotografias, tiradas numa feira qualquer. Como é costume, eram muito jovens os que se acotovelavam para estar perto do homem. Nada de novo. Mas só à primeira vista. Ao olhar melhor para as fotos, reparei que em várias delas havia jovens negros. Rapazes e raparigas negros, felizes por se fotografarem ao lado de quem faz vida de dizer que os direitos devem ser só para “os portugueses de bem”, de quem desmente que haja o racismo que certamente sentem todos os dias na pele, de quem defende a bondade do colonialismo português.
Congelei por um momento. Fiquei a olhar para as fotografias. Para aqueles rostos sorridentes, os cabelos........
